CEMITÉRIO, LUGAR ONDE TUDO TERMINA?
Cresci
em Cachoeiro de Itapemirim, em um local que, naquele tempo, se chamava bairro
dos Ferroviários e, mais tarde, recebeu o nome de Nossa Senhora da Penha. O
primeiro nome foi em função da quantidade de homens que trabalhavam na rede
ferroviária e moravam na parte baixa, onde ficam o Hospital Evangélico e o
Instituto do Coração — referência nesse tipo de tratamento de problemas
cardíacos no sul do Estado.
Nossa
casa fica do lado direito da Rua Maria Dulce Garioli, nome dado em homenagem a
uma antiga moradora. Naquela época, não existia esse conceito de limites de
território que temos hoje; entre a nossa casa e a da vizinha, a divisa dos
terrenos era uma cerca viva, conhecida como sansão-do-campo.
Lembro-me
bem do meu velho pai conversando com a vizinha ao lado de nossa casa sobre a
vida, oportunidade em que ela usou uma frase interessante que nunca mais
esqueci: "Sr. Osmani, na ordem natural das coisas os velhos morrem
primeiro, mas não existe ordem natural nessas coisas". E, desde aquele
tempo, percebi o quanto ela tinha razão.
Todos
nós temos certeza plena, desde que nascemos, de que um dia vamos morrer. Não
quero entrar em questões teológicas, mas puramente humanas — coisas do nosso
dia a dia que mexem profundamente com o nosso emocional. Costumo dizer que só
pensamos na finitude da vida quando perdemos pessoas que nos são próximas e
queridas.
Estava
assistindo, na tarde deste sábado, a um vídeo do Cemitério Municipal de
Cachoeiro gravado pela minha irmã. Eram imagens de sepulcros, pois ela fora ao
sepultamento da nossa tia Laurinda Silva, uma das irmãs mais novas da minha
mãe. No vídeo, a Solange disse que estava em um lugar onde as pessoas dizem que
tudo terminou. Mas será que é assim que tudo termina?
Não
creio que a história de Laurinda tenha terminado ali. Muito pelo contrário,
acredito que os feitos dela ficarão para sempre em nossos corações, até que a
vida deixe de existir em nossas jornadas terrenas.
Laurinda
foi uma dessas irmãs que, na juventude, nunca deixaram de viver de maneira
alegre e divertida, porém jamais se descuidaram de amparar e ajudar quem
precisava. Maria, sua irmã e minha mãe, nunca deixou de reconhecer toda a ajuda
que recebeu dela por ocasião do nascimento da minha irmã mais nova.
Laurinda
viveu para sua família com todas as forças do seu ser. Nos seus 82 anos de
vida, teve o prazer de ver o nascimento dos seus netos. Como a vida é sempre
cheia de surpresas agradáveis e outras não, nesse tempo ela passou pela dura
experiência de sepultar a sua filha Josiane, fato que marcou para sempre a sua
trajetória.
Laurinda
era uma mulher muito forte, e isso ficou evidenciado pela quantidade de
batalhas que enfrentou na vida, sem nunca esmorecer nos momentos mais difíceis.
Nos últimos anos, quando soube da doença, ela a encarou com dignidade, como
fazem as pessoas que são gratas e conscientes do privilégio de viver.
Laurinda,
ao contrário da expressão popular de que o cemitério é o lugar onde tudo
termina, teve apenas a sua história de vida na dimensão humana encerrada. Ela
continuará viva na mente e no coração dos irmãos Vivaldo, Maria e Lucy. Sempre
gostei da maneira como eles se preocupam uns com os outros e da importância que
dão às visitas mútuas como forma de demonstração de carinho e respeito.
Tive
a oportunidade de visitá-la com a minha mãe no mês passado. Pudemos conversar
com ela no leito, relembrar muitas histórias de nossas vidas e o quanto eu,
mesmo quando criança, gostava de ver e ouvir as peripécias que ela fazia e
muitas outras histórias.
Foram
mais de oito décadas de vida e, como sobrinho, tenho certeza de que o meu
pensamento resume o sentimento dos parentes, da filha Carla e dos netos: gratidão
pelo tempo que passamos juntos.
Quero
terminar desejando que Deus possa confortar os nossos corações, pois o momento
da despedida é sempre muito duro. E em Apocalipse 21:4, assim lemos: “E Deus
limpará de seus olhos toda a lágrima; e não haverá mais morte, nem pranto, nem
clamor, nem dor; porque já as primeiras coisas são passadas.” Portanto, podemos
guardar todas as nossas memórias com todo o afeto e ficar convictos de que nem
tudo termina no cemitério.
É
isso por esta madrugada...

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