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quinta-feira, 20 de agosto de 2026


SE EU FOSSE CONTAR...

Que nasci num lugarejo chamado Parada de Coronel Benjamin, em casa.

Que naquela época fui registrado em Vargem Alta, distrito de Cachoeiro de Itapemirim.

Que anos depois o distrito foi emancipado; logo, tornei-me cidadão vargem-altense, com muito orgulho.

Que a minha mãe de leite foi uma senhora chamada dona Palmira, que nos visitou durante anos em Cachoeiro. Os dias eram assim!

Que sou o irmão mais velho de uma família de seis filhos: três homens e três mulheres. Cresci num lar normal. Meu pai trabalhava na Rede Ferroviária Federal, antiga Leopoldina, e minha mãe cuidava da casa; ambos desempenharam um enorme papel na nossa educação.

Que me converti aos 10 anos e fui batizado aos 12, na Igreja Batista do Aquidabã, pelo Pastor João Brito da Costa Nogueira. Lá cresci e me encantava com as histórias bíblicas contadas pelas tias com o flanelógrafo (quadro revestido de flanela ou feltro, utilizado nas aulas).

Que desde aquela idade comecei a participar de grupos musicais, como o conjunto masculino daquela igreja, sob a orientação de Sebastião Ribeiro — família que foi importante na nossa caminhada evangélica.

Que aprendi a tocar bateria na Igreja, pois no dia da apresentação do Conjunto Emanuel o baterista não foi, e eu me sentei na batera e fiquei por cinco anos vivendo maravilhosas experiências que fazem parte das minhas memórias musicais, com muito orgulho.

Que fui recomendado ao Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil no ministério de Diné René Lóta, pastor de Aquidabã naquela ocasião.

Que, no Rio de Janeiro, conheci minha querida Primeira Igreja de Manguinhos e lá permaneci por 15 anos, sendo seu pastor por sete anos e meio.

Que vivi a minha mais profunda e prazerosa experiência como pastor ao descer às águas batismais com o meu saudoso pai. Foi o sonho de ver o milagre que Deus fez naquela vida junto de toda a minha família.

Que, nesse tempo, fui indicado pelo meu amigo e querido pastor Israel Belo de Azevedo para trabalhar no Colégio Batista Shepard, onde permaneci por 10 anos, passando também pelo Colégio Batista Brasileiro, ambos no Rio de Janeiro.

Que, no meu tempo de Colégio Batista, além de aprender literalmente a “dar aulas” de Ensino Religioso — onde conheci muita gente querida —, tive o prazer de servir como capelão-assistente do Pastor Paulo Roberto Sória, com quem pude aprender lições que utilizei ao longo da minha vida no magistério.

Que fui executivo da Juventude Batista Carioca num tempo difícil, mas que me trouxe experiências e amigos (alguns já falecidos) que levarei por toda a minha vida.

Que prestei concurso público no Espírito Santo, começando minha vida de servidor público em Ecoporanga, no noroeste do estado, onde conservo amigos até o dia de hoje, como Sônia Regina, Pedro Paulo, Carolina e muitos outros...

Que tive a honra de trabalhar como orientador educacional na Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio Liceu Muniz Freire, e sentia meu coração acelerar quando andava pelos corredores onde outrora fora aluno.

Que me mudei para São José dos Campos (SP) para trabalhar com o Cléverson Damasceno, assumindo o lugar de Ricardo Aurino na Congregação Batista do Campo dos Alemães, indicado pelo meu amigo José Roberto Tiago Leite — pastores queridos por cujas vidas e famílias nutro uma imensa gratidão.

Que fui pastor de juventude da Igreja Batista do Aquidabã e depois seu pastor por quarenta meses, local onde cresci e tive o privilégio de viver tempos difíceis, mas de grandes vitórias.

Que Deus me deu a oportunidade de servi-lo como missionário no Continente Africano, passando pelo Senegal, onde fiz amigos (Ricardo e Denise, sua esposa; Humberto, Elis e filhos; Andreia e Nita).Nesse time vencedor, há também uma integrante chamada Verinha, que serviu durante anos no Mali. Guardo esse povo para sempre no meu coração.

Que do Senegal fui enviado ao Togo, onde encontrei amigos que poderia, sem nenhuma dúvida, chamar de anjos de Deus em terras togolesas: Fofoné, Ellen e depois o João; fui cercado de cuidado, carinho e muito amor de irmão de sangue.

Que ao voltar ao Brasil, especialmente à Secretaria de Educação, tive a oportunidade de viajar pelos 78 municípios e visitar literalmente todas as nossas escolas, trabalhando com Ana Bravim, uma amiga de todas as horas, sob a liderança de Josivaldo Barreto, alguém que tem lugar cativo no meu coração.

Que tive a oportunidade de participar da Primeira Igreja Batista em Jardim Carapina como professor da sala da terceira idade, outrora liderada pelo amigo de Seminário Marques Xavier e agora por Francisco (Xicão), ambos pastores que tenho em alta estima.

Que os dias se passam e a cada manhã descobrimos que Deus derrama o Seu amor na vida e no coração das pessoas que seguem impregnadas dessa graça; e elas nos atingem de tal jeito que ficamos sem palavras para agradecer e utilizamos aquela expressão que mais conhecemos: muito obrigado! Karynna e Railda, como gostaria que o mundo fosse cheio de pessoas como vocês; seria um lugar melhor para se viver.

Que, neste tempo que se aproxima do final da minha passagem pela Secretaria de Estado da Educação — considerando o percurso anterior —, sob a liderança do gerente Matheus Volponi e ao lado dos meus colegas de equipe, Bruno (nosso chefe), Tarcísio, Zezé, Cely, João Vitor, Úrsula, Monik, Roseni, Danielly BS e Tony (in memoriam), sempre foi um privilégio estar com vocês.

Que nesses vinte e um anos de Secretaria fiz muitos amigos, desde o cafezinho até as inúmeras viagens em grupo, que são capítulos à parte e acalentam o meu coração com as marcas deixadas para sempre; e, para não ser injusto, não citarei nomes, mas reafirmo o meu reconhecimento.

Que os meus queridos tios, tias, primos, primas, vizinhos, amigos de perto e de longe foram fundamentais na minha infância, adolescência, juventude e idade adulta, deixando histórias que contribuíram para a minha formação.

Que nesses sessenta e sete anos, sou grato a Deus pelos meus pais — Osmani (de saudosa memória) e Maria Gomes, minha querida mãe —, e por Sueli, Rogério, Solange, Renato e Leonora: obrigado pelos bons e difíceis momentos que vivemos na diversidade, sem perder a unidade.

Se eu fosse contar que sou grato a Deus pela vida que Ele me deu, ficaria por aqui escrevendo um bom período da minha existência; e, para tornar essa tarefa mais fácil, tentei resumir um pouco das inúmeras manifestações do amor de Deus sobre a minha vida.

A Deus toda honra, glória e louvor.

 



quarta-feira, 19 de agosto de 2026


Um carro, um homem e uma noite fria...

Na segunda-feira, saí no final da tarde do trabalho, após um dia que começou bem cedo em Vila Velha. Minha casa fica a pouco mais de oitocentos metros do mar. Todos os dias saio bem cedo e, por volta das 05h22, embarco no ônibus que me leva até Vitória.

Sempre início minha manhã tomando café na Lanchonete Caldo de Cana, onde encontro pessoas amigas. Ontem, fomos agraciados com a presença de Soraya, uma querida mineirinha que saiu de férias e foi passear em Rio Claro, em Minas Gerais, onde permaneceu por 25 dias, aproveitando as belezas daquele Estado.

Para uma segunda, nosso dia foi bem corrido, pois, ao contrário do que muitos pensam, o serviço público é cheio de decisões e trabalho. Muitas vezes o dia é curto devido à quantidade de afazeres, tais como telefonemas, reuniões, redação de despachos e atendimento a inúmeras demandas.

Durante o almoço, sempre aproveito para fazer a famosa resenha, e o papo sempre varia entre futebol, Cataratas do Iguaçu, Usina Hidrelétrica Binacional de Itaipu até a maneira como se faz uma salada. Versatilidade não falta, e isso depende muito dos atores que se encontram na mesa do refeitório.

Ao final da tarde, por volta das 16h, peguei meu casaco de frio e, com certo esforço, o dobrei e coloquei na minha pequena mochila. Segui para o ponto de ônibus, alternando nas mãos o exemplar do livro Crônica do Pássaro de Corda, que foi docemente degustado ao longo da viagem. Na padaria, entre o café e um pedaço de pão com manteiga na chapa, fui cuidadosamente avançando na leitura.

Ao chegar em casa, passei por dois pontos de onde vinha um cheiro agradável de churrasco — que não parecia ser de gato, devido à quantidade de pessoas que se aglomeravam nos locais numa final de tarde fria. Depois de desviar de algumas poças d’água e carros apressados, cheguei ao portão e, ao colocar a chave no cadeado, observei de soslaio uma pessoa sentada do outro lado da rua. Subi, sentei e avancei um pouco mais na leitura do livro.

Após uns quarenta minutos, resolvi descer para ligar o carro, pois o veículo estava parado há mais de quatro dias. Liguei o automóvel e, assim que ele funcionou, olhei direito para a pessoa que estava sentada na calçada e percebi que ela estava como que selecionando o lixo. Após uns cinco minutos, ela comia aquilo que separava. Aquela cena muito me incomodou, e imediatamente retirei a chave da ignição e voltei para o interior de casa.

Em casa, separei uns pães, fiz alguns sanduíches e os coloquei numa sacola. Desci e fui até onde aquele homem se encontrava. Cheguei com certo receio da reação dele e disse-lhe: — O senhor não me pediu nada desde que aqui cheguei, mas senti o desejo de compartilhar o que tenho neste momento com você. Posso? Tenho uns cinco pães com queijo.

No exato momento em que falei, ele tirava um tomate podre de uma pequena lata, com aquele caldo de fruta estragada. Ele me olhou e disse: — Você não sabe como eu desejava comer um pão.

Olhei para aquele homem e, quando pensei em falar alguma coisa, senti um nó na garganta e não consegui dizer nada. Balancei a cabeça e voltei para casa.

Como estou em transição de casa, só consegui fornecer alimento para uma noite e, provavelmente, um café da manhã. A noite avançou e fui para a cama ainda pensando naquela cena. Acordei algumas vezes sentindo muito frio e, quando finalmente chegou o momento de me levantar, decidi saber a temperatura e me assustei quando vi 16 °C no meu celular. Uma noite que deve ter sido um pesadelo para muitas pessoas do nosso imenso país.

A maioria de nós tem uma boa casa e agasalhos que nos dão a comodidade de enfrentar esses tempos adversos em segurança, no aconchego de nossos lares, e devemos ser gratos por isso; mas nunca podemos nos esquecer daqueles que não têm casa nem pão num tempo como este. Entendo que vivemos tempos difíceis e nem sempre as pessoas que pedem ajuda de fato necessitam, mas também penso que não sou eu quem deve julgar a necessidade do outro e sempre devo pedir a Deus sensibilidade para enxergar os que de fato precisam de socorro.

Lembrei-me da passagem bíblica que nos diz em Mateus 25:35-40: “Porque tive fome, e me destes de comer... me destes de beber... quando te vimos com fome e te demos de comer... beber?... E, respondendo o Rei, lhes dirá: Em verdade vos digo que, quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes”. São palavras que sempre me fizeram refletir sobre a importância de ajudar e ser útil na vida das pessoas que me cercam, com o desejo de servir como um gesto de solidariedade humana. Muitas vezes, o que representa pouco para mim é essencial para o nosso próximo.

Que a minha e a nossa escolha sempre recaia sobre o ser humano — neste caso, representado por aquele homem —, sempre tentando ajudar, na medida do possível, com o muito que muitas vezes temos. São pães, roupas, alimentos e objetos que não nos fazem a mínima falta, mas ocupam lugar nas nossas geladeiras, armários e quartinhos da bagunça, deteriorando-se em perfeito estado até serem jogados no lixo.

Que Deus nos dê e nos ensine a maneira de amar como Ele nos amou, dando o Seu próprio Filho.

É isso por hoje... é vida que segue!