FUTEBOL: O ÓPIO DO POVO
Na
década de 70, nas Igrejas Batistas do Brasil, havia, um pouco antes do culto
noturno, um encontro chamado União de Treinamento, que acontecia com os
adolescentes, jovens e adultos. O objetivo era treinar o povo para melhor
trabalhar na Igreja.
Naqueles
anos, havia uma revista voltada para os jovens com assuntos variados, e
recordo-me de um artigo baseado na expressão usada por Karl Marx no século XIX,
na qual ele afirmava que “a religião era o ópio do povo”. Essa expressão ganhou
muita força nos anos 70 devido ao crescimento dos movimentos estudantis,
sindicais e de oposição às ditaduras militares, que usavam esse referencial
teórico para analisar a sociedade.
A
teologia da libertação surgiu nesse tempo como uma corrente que tentava
inverter essa lógica: em vez de uma religião que alienava (como o ópio), ela se
engajava nos movimentos sociais para ajudar os mais pobres contra as
injustiças. A metáfora do “ópio” era usada pois, na época de Marx, a substância
funcionava como analgésico para aliviar o sofrimento, tanto quanto como droga
que entorpecia e tirava o poder de reação.
Mas
a pergunta que não pode ficar sem resposta é: o que tem a ver a expressão que
Karl Marx usou como linguagem figurada na época em que ele vivia com os nossos
dias atuais? Como não posso pedir permissão para parafrasear a expressão dele,
tomei a liberdade de utilizá-la como título da nossa crônica da noite de
domingo, publicada na segunda-feira. Mas quais são os motivos que nos levam a
comparar o futebol ao ópio do povo?
A
cada quatro anos vivemos um fenômeno mundial, quando milhares de aparelhos de
TV são ligados simultaneamente para assistir à Copa do Mundo de Seleções de
Futebol. Neste ano tivemos mais uma novidade, pois aqueles jogos que você só
conseguia assistir por assinatura em canais especializados, hoje, basta ligar o
seu smartphone, em qualquer lugar que esteja, e assistir ao seu jogo.
A
Copa do Mundo de Futebol é o único evento que consegue fazer o povo brasileiro
vestir e desfilar com orgulho as cores da Bandeira Nacional, sem medo de ser
feliz, ainda que existam grupos políticos que, de maneira ridícula, tentem se
apropriar dessas cores que pertencem à Nação Brasileira.
O
futebol exerce a magia de nos fazer esquecer os nossos maiores problemas e,
durante os dias da competição, nos apegamos a todos os meios de comunicação
para assistir aos jogos, extravasando os nossos maiores sentimentos de alegria
ou raiva. Nesse tempo muitos ganham dinheiro, mas, na esmagadora maioria, o
número de perdedores é infinitamente maior.
O
futebol tem o poder de unir os povos das mais variadas nações ao redor do mundo
em torno de um aparelho para torcer pela seleção do seu país ou por aquela que
eles simpaticamente escolheram durante a competição; mas quando, porventura, a
equipe do coração é eliminada, a frustração é generalizada.
O
futebol nos faz buscar no nosso íntimo os mais profundos e raivosos sentimentos
xenofóbicos, e passamos a odiar pessoas e nações, desejando que sejam
eliminadas — e esses sentimentos, muitas vezes, duram anos, atravessados em
nossa garganta. Durante anos vivi com a Argentina entalada, até que me libertei
desse sentimento, mas sei que tem muita gente que ainda não esqueceu a Croácia
ou a Bélgica, e vai viver muito tempo tendo pesadelos com o norueguês Erling
Haaland.
O
futebol consegue modificar e anestesiar coletivamente uma nação. Na manhã desta
segunda-feira, no coletivo, havia um silêncio; e, quando alguém ousava dizer
alguma coisa, a conversa era sempre em torno da eliminação do Brasil e da falta
de compreensão do porquê de o Vinícius Júnior não ter cobrado o pênalti. Paira
no ar uma sensação de entorpecimento.
O
futebol tem a capacidade de nos fazer viver a contradição de torcer a favor
quando o jogador do meu time de coração faz uma boa jogada na seleção, mas, no
fundo do coração, desejar que o atleta do time adversário se dê mal e que ele
erre, só para culpá-lo pelo insucesso da equipe. Imagino a sensação de alívio
para os vascaínos quando a Noruega fez os dois gols e o atleta da base do Vasco
não estava em campo. Pode soar absurdo, mas é assim a cabeça do torcedor.
O
futebol dos nossos dias desperta os sentimentos mais estranhos na política
brasileira. São “líderes” que marcam os minutos em que o pênalti foi perdido, o
número da camisa do jogador que errou e proporcionou o gol do adversário, e a
camisa do atleta que fez o gol da vitória. Até o número da camisa do azarado do
jogador por quem a bola passou por entre as pernas, no segundo gol da Noruega,
não foi perdoado.
A
impressão que tenho é de que, em muitos momentos, o futebol funciona como o
ópio, metaforicamente falando, pois esquecemos momentaneamente das nossas
crises e entramos numa dimensão em que parece que o tempo para e tudo se
resolve com boas apresentações e vitórias de nossa seleção.
Depois
de 25 dias desde o início da Copa do Mundo, assim que o efeito do futebol na
veia vai passando, gradativamente começamos a retornar à realidade, que para
muitos é extremamente dura e com poucas perspectivas de saída a curto prazo.
Que
a magia do futebol seja aplicada na vida quando enfrentarmos nossos problemas
coletivos, como a busca por melhoria de vida para a população, educação de
qualidade para nossas crianças, mais segurança para o nosso povo, respeito aos
nossos idosos e às escolhas religiosas que as pessoas fazem num país de
extensão continental como o Brasil.
Que,
passada a euforia do futebol, essa dedicação seja colocada sobre a vida em
favor da compreensão mútua e do prazer de viver; se não fazendo tudo o que
gostaríamos para tornar esse mundo melhor, mas tudo o que fizermos, que seja de
coração, dando o melhor do nosso ser para que a nossa vida e a do próximo
tenham sentido.
Sabedor
de que, entre a data de ontem até a próxima Copa do Mundo, teremos muitos
campeonatos nacionais e torneios que nos mobilizam (embora a anestesia não seja
geral), desejo que essa caminhada seja com menos atropelos e menos decepções
como aquela vivida ontem.
É
isso por hoje. Enxugue as lágrimas e lembre-se... é vida que segue!

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