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terça-feira, 26 de maio de 2026


MAS EM NADA TENHO A MINHA VIDA POR PRECIOSA...

Na minha história de vida tive várias tias, porém uma delas chamada Maria Gomes Caitano, também conhecida como Babá, era irmã do meu saudoso pai. À medida que fui crescendo, descobri que ela trabalhava na Santa Casa de Misericórdia de Cachoeiro. Era enfermeira e, além de se dedicar ao seu ofício, levava uma vida alegre, leve e solta com as suas colegas de trabalho e familiares. Sua juventude, através do meu olhar de sobrinho, era plenamente feliz.

No início dos anos setenta, eram os tempos da Jovem Guarda no Brasil, representada por um grupo de jovens que eram idolatrados com suas canções de rock e “iê-iê-iê” (vertente melódica inspirada nos Beatles) e que fizeram um enorme sucesso. Lançaram a moda de uma camisa quadriculada com gola dupla que, para os padrões locais, era linda. O primeiro e único menino a ter uma camisa daquela foi o Robertinho, presente da minha querida tia Babá. Fiz um tremendo sucesso, só não conquistei uma gatinha por ser tímido.

Minha tia tinha uma disposição para fazer muitas traquinagens. Recordo-me de certa vez que, ao chegar em casa, percebi que no pé de abacate havia um galho quebrado. Ao nos questionarmos, fomos surpreendidos com a explicação dela: "Subi para tirar uns abacates e, de repente, o galho não suportou o meu peso e desci com abacate e tudo ao chão."

Os anos foram passando e tornei-me adolescente. A primeira casa onde agora a Senhora Conceição e seu esposo foram morar foi no Bairro Coronel Borges, bem próximo da primeira escola da APAE. Lembro-me de ter ido algumas vezes lá; pena que não havia abacateiros e nem mangueiras para serem escaladas.

O tempo passou e ela foi com o esposo morar perto da nossa casa, e formamos uma bela parceria: agora eu era o entregador de marmita para o tio Francisco, no ponto de ônibus que ficava perto do Cinema Broadway, ao lado da ponte de ferro de Cachoeiro de Itapemirim. Durante aquele tempo, conviver com a minha tia diariamente era prazeroso, pois eu me sentia gente grande.

À medida que o tempo foi passando, chegou a primeira menina, Fabiane, que alegrou a família e foi uma grande festa. A menina começou a crescer e, depois de dois anos, chegou mais uma menina, Flávia, e foi outra grande festa. As meninas começaram a crescer e era preciso construir uma casa maior, e isso foi feito com muito trabalho do casal Babá e Francisco.

Depois de enfrentarem muitas barras e batalharem por recursos, construíram uma bela casa. Oito anos após o nascimento de Flávia, a família ficou completa com a chegada de Francisco Júnior. Foi uma alegria, e Conceição praticamente não conseguia se conter. Mas um fato sempre foi marcante no desenvolvimento das crianças: desde muito cedo foram encaminhadas à Igreja, mas o aprendizado maior sempre foi pelo exemplo, e não pelas palavras.

Depois desse tempo, toda a família se mudou para a Serra, na Grande Vitória, deixando saudades e a impossibilidade de conversar aos gritos. É que a casa da minha mãe ficava na rua de baixo e a dela na rua de cima; no meio havia um grande vale e, para economizar telefone, muitas vezes nossas conversas eram expostas à vizinhança. Tempos maravilhosos.

Os anos se passaram e, pela ordem natural da vida — embora não exista ordem natural para esse fato —, a família cresceu com o casamento de Fabiane com Christian e a chegada dos netos Níkolas e Sophia, que praticamente visitam o Brasil a cada ano, fazendo a alegria da família.

Mesmo morando distante, Babá nunca deixou de exercer aquilo que mais lhe trazia prazer: ajudar o próximo. Muitas vezes ela deixava a família na Serra e viajava para passar dias em Cachoeiro para acompanhar pessoas que estavam doentes e que precisavam de ajuda. Inúmeras pessoas foram acolhidas por ela ao longo de sua vida, pois tinha prazer em servir.

Durante a sua vida, um fato sempre me chamou a atenção: a amizade de Babá com Maria Gomes, minha querida mãe. As duas, desde os primeiros dias de casamento da minha mãe com o irmão dela, desenvolveram uma profunda amizade, bonita de se ver — fato contado pela minha mãe. Falavam-se sempre duas vezes durante o dia: uma vez pela manhã e outra à tarde, infalivelmente. Sei que esses telefonemas farão muita falta à minha mãe Maria.

Escrever sobre a Babá é fácil, pois desde o tempo em que me entendo por gente — gosto dessa expressão —, sempre vi bondade na sua vida e no seu jeito de ser. Sou grato a Deus pela vida da minha saudosa tia e tenho certeza de que ela amou as pessoas de maneira incondicional e foi muito amada por todos. A expressão desse amor, com o coração grato, nós vimos no seu velório, pela quantidade de amigos que vieram de longe para prestar-lhe as últimas homenagens.

Como sobrinho, sentirei falta das brincadeiras durante os nossos encontros e das conversas. A última aconteceu no dia 1º de maio. Foi um tempo muito bom de brincadeiras, lembranças e comunhão. Um fato curioso foi que liguei várias vezes para minha mãe e ela não atendeu, mas a Babá foi até o quarto dela, pegou o telefone, ligou, e a Dona Maria prontamente a atendeu. Logo reclamei: — Como a senhora atende a minha tia e não ao seu filho? Gargalhamos bastante!

Foi tudo muito rápido, e ver minha tia em um hospital nas condições em que a encontrei foi muito difícil. Mas, em meio a todo aquele sofrimento, algo me chamou a atenção: a maneira digna e cheia de fé com que ela enfrentou a doença. Não saiu daquela boca nenhuma palavra de reclamação e, em todos os momentos em que podia, ela apenas agradecia a Deus. Recordei-me de Jó 1:22: “Em tudo isso, Jó não pecou nem culpou Deus”. Babá demonstrou o tempo inteiro atitudes de fé, na certeza de que o Redentor vive e agora Ele a tem nos Seus braços eternamente.

Sei que o Tio Francisco e a Flavinha sentirão falta da esposa, mãe, companheira e amiga, numa casa que ficou maior devido à ausência de Conceição. Imagino o quanto foi e tem sido duro para a Fabiane, como filha, estar longe dos acontecimentos que vivemos na semana passada. Não vai ser fácil explicar às crianças que a avó está nos braços do Pai. Crianças têm muita dificuldade de compreender tempos de perdas e de luto. Sem contar que perderam recentemente o avô por parte de pai.

Babá viveu o tempo inteiro para os seus familiares, tendo contribuído para a criação dos seus três filhos ao lado do seu marido. Fizeram um excelente trabalho, e as provas estão bem diante de todos nós.

Babá enfrentou todo o processo da doença com muita dignidade e com a serenidade que somente pessoas de fé conseguem ter. A cada momento em que recobrava a consciência, sempre evocava o nome de Deus com um sentimento de gratidão.

Babá nunca deixou de enfrentar os problemas da vida com a alegria que permaneceu com ela até o momento em que Deus a convocou às mansões celestiais. Foi uma pessoa que procurou viver com intensidade as palavras de Paulo em Filipenses 4:4: “Alegrai-vos sempre no Senhor; outra vez digo, alegrai-vos.”

Babá, com sua vida, conseguiu acompanhar diversas famílias e reuniu no seu falecimento várias gerações de pessoas amigas que não deixaram de se juntar para prestarem as últimas homenagens à amiga querida, que ficará para sempre nos nossos corações.

Babá viveu com sabedoria e desapego, assim como o Apóstolo Paulo: “Mas em nada tenho a minha vida por preciosa, contanto que cumpra com alegria a minha carreira, e o ministério que recebi do Senhor Jesus, para dar testemunho do evangelho da graça de Deus.” (Atos 20:24). Entendo como Ministério o cuidar de pessoas a tempo e fora de tempo, e isso ela fez com perfeição.

Babá não foi somente filha, mãe, avó, esposa, sogra, cunhada, amiga e irmã em Cristo Jesus, mas foi alguém que teve a oportunidade de conhecer e segurar seus netos, bem como uma quantidade de crianças que praticamente nasceram nos seus braços.

Sou grato a Deus por Ele ter sido bondoso e misericordioso, dando-nos a presença de Tia Babá conosco por variados anos... sessenta e seis... cinquenta e dois... sessenta e nove... dez... seis... tempo que jamais será esquecido.

“Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o Reino que vos está preparado desde a fundação do mundo.” (Mateus 25:34). Agora, Babá faz parte desse Reino, para onde todos nós um dia iremos.

Em Cristo... cheio de saudades eternas!!!

Um comentário:

  1. Parabéns pelo Belíssimo texto!! Você conseguiu transmitir com palavras o que toda família gostaria de dizer...A dor da partida é imensa, mas o legado que a tia Babá deixou jamais será apagado... Vamos guardar para sempre sua voz, seu jeito de cuidar e o amor que transmitia até nos momentos mais difíceis... Obrigado por tudo, tia... Sua missão aqui foi linda. Descanse em paz!!

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