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quinta-feira, 16 de julho de 2026


Uma passagem pela Prefeitura de Ibiraçu, no norte capixaba

Saímos da Grande Vitória por volta das sete horas da manhã, depois de uma noite longa e cheia de pensamentos que insistiam em ocupar a minha mente. A batalha foi dura, mas o sono foi mais persistente, pois contou com a ajuda do corpo, que se curvou diante do cansaço.

Na Prefeitura, fomos muito bem recebidos pelo servidor Salazar que, após uma conversa inicial, nos conduziu ao prédio onde fica o Gabinete do Prefeito em exercício, pois o titular estava de férias.

Para chegar ao gabinete do prefeito, o caminho pelo corredor é bem estreito e com plantas de ambos os lados; o interior tinha um aspecto bem antigo. Passamos pela portaria e, quando iniciamos a subida, ao observar os degraus, imediatamente meus pensamentos voltaram ao século passado, nos anos dourados da minha infância. A cada passo, ouvíamos um som diferente, pois a madeira era velha, porém conservada.

Ao chegarmos ao segundo piso — um corredor largo —, observei alguns quadros antigos bem-posicionados na parede, que tinha um aspecto desgastado pelo tempo. Senti meu coração apertar quando olhei para o piso de friso, muito bem cuidado. Voltei ao início dos anos setenta, na nossa antiga casa da nossa rua que, naquela época, chamava-se Anacleto Ramos. Naquele tempo, morar em rua com calçamento era coisa de gente rica.

A casa era antiga e ficava na frente de um dos terrenos, do lado direito. Bem ao lado, havia um pé de limão-tahiti e, ao fundo, um coqueiro e um abacateiro. No segundo terreno, à esquerda, havia um pé de caju que existe até hoje, três mangueiras, uma goiabeira e, ao fundo, uma plantação de taioba que se desenvolvia com as águas do tanque e da pia da cozinha, sob a sombra das árvores descritas.

No terceiro lote havia um galinheiro, pois era comum criar galinhas caipiras, e, no fundo, um chiqueiro. Sempre tínhamos um porquinho que ficava na engorda. Naquele tempo, os vizinhos ajudavam doando as sobras de comida — a famosa 'lavagem'. Quando matávamos o porco, cada um recebia um bom pedaço, além da carne que era cuidadosamente armazenada em casa, em grandes latas de 18 litros que originalmente continham manteiga

Era uma casa muito pequena. Entre a porta da sala e a rua, havia uma pequena varanda com piso de cimento liso e vermelho. O piso da sala era de taco de madeira, assim como o quarto dos meus pais e o nosso quarto, onde havia um beliche que era a nossa diversão. Aos sábados, era sagrado: a casa toda era encerada com a velha cera em pasta, espalhada pelos cômodos. Depois, passava-se o escovão, um instrumento de ferro pesado com uma flanela por baixo que deixava a casa brilhando.

O problema era quando a minha mãe estava limpando a casa: assim que "davam o brilho", era terminantemente proibido passar por aquele local. O risco de ser alcançado por uma sandália — ou por algum outro objeto não cortante, mas extremamente ardente nas costas ou nas pernas — era grande. Não sei por que razão a minha irmã insistia em desafiar essa regra, mas, sem precisar ser muito esperto, logo entendi que o interior da casa, aos sábados pela manhã, não era seguro.

Esse filme passou pela minha cabeça no tempo que levei caminhando até a mesa da secretária do Prefeito, enquanto contemplava o piso de friso. No alto da parede, havia um quadro da Igreja de São Marcos, atração turística em Ibiraçu. Como gosto dos aspectos arquitetônicos das igrejas católicas, não poderia deixar de apreciar aquela foto.

Enquanto esperava pelo prefeito, não resisti a fotografar a minha colega sentada naquele belíssimo friso. Imitei-a e sentei-me também e, por alguns momentos, viajei por uma belíssima parte da minha história. Como foi bom revisitar o meu passado, que ajudou a formar o meu presente através de memórias que estão bem vivas. Guardá-las-ei com muito carinho para sempre no meu coração, até que ele cesse a sua função principal, que é bombear sangue por todo o meu corpo. E, quando isso acontecer, alguém ainda se lembrará de mim — não por ter convivido comigo, mas por ter lido alguns textos de minha autoria que os remeterão às minhas memórias.

É isso por hoje... é a vida que segue!

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