Uma passagem pela Prefeitura de Ibiraçu, no norte capixaba
Saímos
da Grande Vitória por volta das sete horas da manhã, depois de uma noite longa
e cheia de pensamentos que insistiam em ocupar a minha mente. A batalha foi
dura, mas o sono foi mais persistente, pois contou com a ajuda do corpo, que se
curvou diante do cansaço.
Na
Prefeitura, fomos muito bem recebidos pelo servidor Salazar que, após uma
conversa inicial, nos conduziu ao prédio onde fica o Gabinete do Prefeito em
exercício, pois o titular estava de férias.
Para
chegar ao gabinete do prefeito, o caminho pelo corredor é bem estreito e com
plantas de ambos os lados; o interior tinha um aspecto bem antigo. Passamos
pela portaria e, quando iniciamos a subida, ao observar os degraus,
imediatamente meus pensamentos voltaram ao século passado, nos anos dourados da
minha infância. A cada passo, ouvíamos um som diferente, pois a madeira era
velha, porém conservada.
Ao
chegarmos ao segundo piso — um corredor largo —, observei alguns quadros
antigos bem-posicionados na parede, que tinha um aspecto desgastado pelo tempo.
Senti meu coração apertar quando olhei para o piso de friso, muito bem cuidado.
Voltei ao início dos anos setenta, na nossa antiga casa da nossa rua que,
naquela época, chamava-se Anacleto Ramos. Naquele tempo, morar em rua com
calçamento era coisa de gente rica.
A
casa era antiga e ficava na frente de um dos terrenos, do lado direito. Bem ao
lado, havia um pé de limão-tahiti e, ao fundo, um coqueiro e um abacateiro. No
segundo terreno, à esquerda, havia um pé de caju que existe até hoje, três
mangueiras, uma goiabeira e, ao fundo, uma plantação de taioba que se
desenvolvia com as águas do tanque e da pia da cozinha, sob a sombra das
árvores descritas.
No
terceiro lote havia um galinheiro, pois era comum criar galinhas caipiras, e,
no fundo, um chiqueiro. Sempre tínhamos um porquinho que ficava na engorda.
Naquele tempo, os vizinhos ajudavam doando as sobras de comida — a famosa
'lavagem'. Quando matávamos o porco, cada um recebia um bom pedaço, além da
carne que era cuidadosamente armazenada em casa, em grandes latas de 18 litros
que originalmente continham manteiga
Era
uma casa muito pequena. Entre a porta da sala e a rua, havia uma pequena
varanda com piso de cimento liso e vermelho. O piso da sala era de taco de
madeira, assim como o quarto dos meus pais e o nosso quarto, onde havia um
beliche que era a nossa diversão. Aos sábados, era sagrado: a casa toda era
encerada com a velha cera em pasta, espalhada pelos cômodos. Depois, passava-se
o escovão, um instrumento de ferro pesado com uma flanela por baixo que deixava
a casa brilhando.
O
problema era quando a minha mãe estava limpando a casa: assim que "davam o
brilho", era terminantemente proibido passar por aquele local. O risco de
ser alcançado por uma sandália — ou por algum outro objeto não cortante, mas
extremamente ardente nas costas ou nas pernas — era grande. Não sei por que
razão a minha irmã insistia em desafiar essa regra, mas, sem precisar ser muito
esperto, logo entendi que o interior da casa, aos sábados pela manhã, não era
seguro.
Esse
filme passou pela minha cabeça no tempo que levei caminhando até a mesa da
secretária do Prefeito, enquanto contemplava o piso de friso. No alto da
parede, havia um quadro da Igreja de São Marcos, atração turística em Ibiraçu.
Como gosto dos aspectos arquitetônicos das igrejas católicas, não poderia
deixar de apreciar aquela foto.
Enquanto
esperava pelo prefeito, não resisti a fotografar a minha colega sentada naquele
belíssimo friso. Imitei-a e sentei-me também e, por alguns momentos, viajei por
uma belíssima parte da minha história. Como foi bom revisitar o meu passado,
que ajudou a formar o meu presente através de memórias que estão bem vivas.
Guardá-las-ei com muito carinho para sempre no meu coração, até que ele cesse a
sua função principal, que é bombear sangue por todo o meu corpo. E, quando isso
acontecer, alguém ainda se lembrará de mim — não por ter convivido comigo, mas
por ter lido alguns textos de minha autoria que os remeterão às minhas
memórias.
É
isso por hoje... é a vida que segue!

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