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quinta-feira, 23 de julho de 2026


VOCÊ NÃO SERÁ NADA QUE PRESTA!

Ela nasceu de uma maneira interessante para a época, pois veio ao mundo com um dentinho. Todos admiravam essa condição, porém isso não era muito confortável para sua mãe quando amamentava a criança. O tempo foi passando, a menina começou a crescer e, desde cedo, já demonstrava que seria uma líder em qualquer situação da vida.

Ela tinha mais dois irmãos e, à medida que o trio ia crescendo, a casa se enchia de alegria. Por ser a menina da casa, era muito paparicada, e os irmãos praticamente não se desligavam dela. Sua infância foi bem normal. Seu pai procurava sempre agradar a menina pelo fato de ela ser o xodó da família.

O tempo passou e a menina, agora adolescente, gostava de estudar e de fazer amizades. Além das colegas de escola, ela também tinha as amigas da igreja e se divertia muito com aquele grupo de meninas. Sempre cercada de cuidados, gostava de estudar e corriqueiramente se saía muito bem nas provas.

Sua personalidade era muito forte e ela nunca deixou de expor os seus pontos de vista. Certa vez, uma professora pediu que uma tarefa fosse feita, e ela a executou sem qualquer dificuldade. Mas, como a professora parecia aborrecida com alguma coisa, não teve dúvida em falar em alto e bom som, diante de toda a classe, de modo que todos ouviram: - Você pode se esforçar, pois você não será nada que presta!

Foi uma expressão muito forte, em especial por ter sido dita a uma adolescente. Ela reagiu como os jovens costumam fazer: ficou com raiva e muito chateada. Mas, como a vida é dinâmica, ela continuou estudando e alimentava o sonho de ingressar no IFES. Como já vinha se preparando, quando o tempo das provas chegou, a menina fez o exame. Para a surpresa daquela professora deselegante, ela foi aprovada e passou em primeiro lugar. Foi uma grande festa na família.

Os anos de IFES foram fundamentais, pois ela queria voar sempre mais alto. Sua mãe procurava dar condições para a moça estudar. Ela concluiu brilhantemente o curso no IFES e, assim que terminou, fez vestibular para Farmácia. Como já era de se esperar, foi aprovada para estudar no município de Vila Velha, na UVV.

Foram cinco anos de muitas lutas. Era preciso sair de casa bem cedo para ir ao trabalho e, no final da tarde, encarar a Terceira Ponte, enfrentar as aulas do curso de Farmácia e voltar para casa — na maioria das vezes exausta —, na Serra, para descansar e começar tudo novamente na manhã seguinte. O tempo passou, a moça se formou e tornou-se uma farmacêutica competente e respeitada.

Trabalhou em uma rede de farmácias, mas logo surgiu a oportunidade de trabalhar em um grande hospital na Grande Vitória. Lá foi a farmacêutica desenvolver a profissão para a qual havia se preparado durante cinco anos. Todo trabalho tem seus percalços e variações, mas ela foi vencendo todas as batalhas que surgiam no meio do caminho.

O trabalho no hospital é muito estressante. Quem cuida da farmácia hospitalar simplesmente não pode errar, pois as medicações precisam chegar corretamente aos pacientes, e a equipe deve trabalhar em total sintonia para alcançar o sucesso no tratamento dos doentes.

Durante certo plantão noturno, depois de observar e conferir o estoque, cuidar do controle dos medicamentos, da adaptação das doses e da validação das prescrições, ela foi passar pelos quartos para averiguar o trabalho da enfermagem. Na última fase do plantão, analisou a prescrição de um certo medicamento e resolveu visitar a paciente para averiguar se a tramitação estava dentro da normalidade.

Assim que entrou em um dos quartos para conferir mais uma vez a medicação, percebeu um olhar insistente em sua direção, mas manteve-se concentrada em seu trabalho. Quando se preparava para sair do quarto, ouviu uma voz que dizia: - Karynna, você não está me reconhecendo?

Ela, de imediato, voltou-se para a interlocutora e percebeu que era aquela mesma professora que havia proferido a frase infeliz no ensino fundamental: "Você não será nada que presta". Aquela mulher, agora envelhecida e com lágrimas nos olhos, encontrou o olhar da farmacêutica e, num gesto rápido, começou a agradecer pelo cuidado dedicado à sua mãe (que era a paciente internada), reconhecendo diante dos fatos o quanto havia sido infeliz em suas palavras no passado.

A menina que "não seria nada que presta" foi exatamente aquela que cuidou com todo o carinho da mãe daquela professora. Existe um ditado popular que diz: “O mundo dá muitas voltas”. Muitas vezes, as pessoas que alguns desprezam ou humilham são justamente aquelas que nos farão o bem em um futuro que jamais imaginaríamos.

Esse fato nos faz lembrar de que, se Deus é por nós, o Seu cuidado se manifesta em todos os momentos das nossas vidas. Ele também nos honra de uma maneira e de um jeito totalmente Seu. A história seguiu, e aprendemos que a melhor honra que podemos receber, na verdade, não é dada pelos homens, mas sim aquela que provém do próprio Deus. Ela vem sem rancor, sem sentimento de grandeza, de forma sutil, satisfazendo a alma. Não nos faz maiores ou melhores, apenas mais humanos, com o desejo de continuar vivendo e servindo.

Essa história nos mostra que aquela menina — agora uma mulher que sempre honrou seus pais e sua família — é uma excelente profissional e muito dedicada às suas atividades na igreja. Aprendi com esse relato que Deus tem os Seus planos para Seus filhos e filhas, e Ele os honra de maneiras inimagináveis. Tudo isso porque Ele é um Pai que cuida dos Seus queridos.

É isso por hoje... é vida que segue!


quinta-feira, 16 de julho de 2026


Uma passagem pela Prefeitura de Ibiraçu, no norte capixaba

Saímos da Grande Vitória por volta das sete horas da manhã, depois de uma noite longa e cheia de pensamentos que insistiam em ocupar a minha mente. A batalha foi dura, mas o sono foi mais persistente, pois contou com a ajuda do corpo, que se curvou diante do cansaço.

Na Prefeitura, fomos muito bem recebidos pelo servidor Salazar que, após uma conversa inicial, nos conduziu ao prédio onde fica o Gabinete do Prefeito em exercício, pois o titular estava de férias.

Para chegar ao gabinete do prefeito, o caminho pelo corredor é bem estreito e com plantas de ambos os lados; o interior tinha um aspecto bem antigo. Passamos pela portaria e, quando iniciamos a subida, ao observar os degraus, imediatamente meus pensamentos voltaram ao século passado, nos anos dourados da minha infância. A cada passo, ouvíamos um som diferente, pois a madeira era velha, porém conservada.

Ao chegarmos ao segundo piso — um corredor largo —, observei alguns quadros antigos bem-posicionados na parede, que tinha um aspecto desgastado pelo tempo. Senti meu coração apertar quando olhei para o piso de friso, muito bem cuidado. Voltei ao início dos anos setenta, na nossa antiga casa da nossa rua que, naquela época, chamava-se Anacleto Ramos. Naquele tempo, morar em rua com calçamento era coisa de gente rica.

A casa era antiga e ficava na frente de um dos terrenos, do lado direito. Bem ao lado, havia um pé de limão-tahiti e, ao fundo, um coqueiro e um abacateiro. No segundo terreno, à esquerda, havia um pé de caju que existe até hoje, três mangueiras, uma goiabeira e, ao fundo, uma plantação de taioba que se desenvolvia com as águas do tanque e da pia da cozinha, sob a sombra das árvores descritas.

No terceiro lote havia um galinheiro, pois era comum criar galinhas caipiras, e, no fundo, um chiqueiro. Sempre tínhamos um porquinho que ficava na engorda. Naquele tempo, os vizinhos ajudavam doando as sobras de comida — a famosa 'lavagem'. Quando matávamos o porco, cada um recebia um bom pedaço, além da carne que era cuidadosamente armazenada em casa, em grandes latas de 18 litros que originalmente continham manteiga

Era uma casa muito pequena. Entre a porta da sala e a rua, havia uma pequena varanda com piso de cimento liso e vermelho. O piso da sala era de taco de madeira, assim como o quarto dos meus pais e o nosso quarto, onde havia um beliche que era a nossa diversão. Aos sábados, era sagrado: a casa toda era encerada com a velha cera em pasta, espalhada pelos cômodos. Depois, passava-se o escovão, um instrumento de ferro pesado com uma flanela por baixo que deixava a casa brilhando.

O problema era quando a minha mãe estava limpando a casa: assim que "davam o brilho", era terminantemente proibido passar por aquele local. O risco de ser alcançado por uma sandália — ou por algum outro objeto não cortante, mas extremamente ardente nas costas ou nas pernas — era grande. Não sei por que razão a minha irmã insistia em desafiar essa regra, mas, sem precisar ser muito esperto, logo entendi que o interior da casa, aos sábados pela manhã, não era seguro.

Esse filme passou pela minha cabeça no tempo que levei caminhando até a mesa da secretária do Prefeito, enquanto contemplava o piso de friso. No alto da parede, havia um quadro da Igreja de São Marcos, atração turística em Ibiraçu. Como gosto dos aspectos arquitetônicos das igrejas católicas, não poderia deixar de apreciar aquela foto.

Enquanto esperava pelo prefeito, não resisti a fotografar a minha colega sentada naquele belíssimo friso. Imitei-a e sentei-me também e, por alguns momentos, viajei por uma belíssima parte da minha história. Como foi bom revisitar o meu passado, que ajudou a formar o meu presente através de memórias que estão bem vivas. Guardá-las-ei com muito carinho para sempre no meu coração, até que ele cesse a sua função principal, que é bombear sangue por todo o meu corpo. E, quando isso acontecer, alguém ainda se lembrará de mim — não por ter convivido comigo, mas por ter lido alguns textos de minha autoria que os remeterão às minhas memórias.

É isso por hoje... é a vida que segue!

quarta-feira, 15 de julho de 2026


A era da intolerância futebolística, política e religiosa...

Futebol, política e religião são os três pilares da paixão humana. Por isso mesmo, alguém já disse que não se deve discutir esses assuntos. Entretanto, os últimos acontecimentos nessas três áreas têm nos surpreendido de maneira bem desagradável. Na Copa do Mundo, em Brasília e, nesta segunda-feira, na cidade de Nerópolis, região metropolitana de Goiânia. Tenho dificuldade de entender se foi vandalismo ou intolerância religiosa. Reprovo veementemente as duas atitudes.

Tenho me preocupado com os rumos que essa tríade de assuntos tem tomado em nosso país, diante de certos movimentos de intolerância, quer seja racial, religiosa ou política, em um ano eleitoral. Acho muito estranho o comportamento de certa parte da população brasileira que, nos últimos anos, tem se comportado de maneira visceral diante desses três assuntos. Mas colocar fogo em Santa é o cúmulo do absurdo.

Até alguns anos atrás, as instituições eram respeitadas, e seus monumentos também, mas, a partir de certo tempo, parece-me que estamos voltando à Idade da Pedra em todos os sentidos. Não somente os assaltos, mas também o desrespeito com a fé alheia. Uma promotora de justiça repreendeu um conselheiro tutelar por mencionar o nome de Deus no início de uma cerimônia, em Duque de Caxias, no Rio de Janeiro.

A impressão que tenho é que a humanidade está retornando aos seus sentimentos mais animalescos, e tudo se resolve com a destruição de qualquer coisa com a qual não concordamos. Isso vale para religião, futebol e política.

Ser o dono da verdade absoluta, sem sequer dar oportunidade para o outro expressar o seu pensamento, virou moda. Se o outro pensa diferente, torna-se meu inimigo mortal! Se nasceu em um país onde os seus pais eram imigrantes, acabou. As pessoas são comparadas a macacos e tratadas como uma subespécie humana — isso quando não jogam bananas e imitam os guinchos dos macacos.

Desde 1982, perdi o encantamento com a Copa do Mundo de futebol, em função da eliminação do Brasil e diante da insistência de Telê Santana com Serginho no ataque, uma vez que Roberto Dinamite era muito mais jogador, mas, neste ano, confesso que peguei nojo. Tanto pelas atitudes das torcidas bem como pelas posturas de autoridades máximas do país anfitrião, e pela postura dos dirigentes da FIFA. Vergonha mundial!!!

O tempo passa, a tecnologia aumenta, e a distância e a agressividade entre as pessoas crescem de maneira assustadora. O que fazer diante desses fatos? Perdemos paulatinamente a capacidade de dialogar em detrimento dos exageros de gritar para defender nossas ideias, de modo que estamos nos tornando insensíveis ao nosso próximo.

Sem querer, estamos vivendo a síndrome do sapo fervido, que é uma metáfora que descreve: se um sapo for colocado numa panela de água fria que vai se aquecendo aos poucos até ferver, o sapo vai continuar lá até morrer. Estamos sendo aquecidos aos poucos com intolerâncias, mentiras e falcatruas e vamos morrendo aos poucos, bebendo água envenenada por todas as instâncias que dominam os meios de comunicação de massa.

Mas não se deixem assustar por nada disso, pois a sempre atual Bíblia nos diz, em Mateus 24:12: “E, por se multiplicar a iniquidade, o amor de muitos esfriará”. No verso 11 do mesmo capítulo, ela diz que “surgiriam falsos profetas e enganariam a muitos”, mas o verso 13 tão somente nos pede para perseverar até o fim, pois seremos salvos. É o fim dos tempos e, para quem não crê, basta olhar para os sinais: terremotos, violência entre a população e a estupidez das guerras em todas as instâncias da sociedade e das nações

Tenho certeza de que precisamos interceder uns pelos outros, mas pedindo muito a Deus que mude a nossa natureza, pois nem sempre o que queremos para os outros é uma realidade na nossa vida. A começar por mim, Deus, mude a nossa nação.

É isso por hoje... é vida que segue!

segunda-feira, 6 de julho de 2026


Educação acolhedora: Um olhar sensível sobre a história do sistema escolar no Brasil

Conversava com um amigo pelas redes sociais na tarde de um certo domingo, em um tipo de disputa sobre quem postava mais coisas. Como ele tem grupos de amigos maiores que os meus, sempre estou respondendo à quantidade de posts dele sobre os assuntos mais diversos — desde economia, assunto de que entendo muito pouco, até educação, que é uma praia em que gosto de nadar. Não significa que eu dê mergulhos profundos, mas arrisco-me com segurança a frequentar algumas praias.

Ao longo dos últimos anos, venho ouvindo muitas críticas à educação e, especialmente, a algumas linhas e métodos que foram usados ao longo do tempo. O interessante é que, no início dos anos 70, com a promulgação da Lei nº 5.692/1971, o Primário e o Ginásio foram unificados no Ensino de 1º Grau, que passou a ter 8 anos de duração.

Com a promulgação da lei supracitada, em pleno regime militar, o objetivo do governo da época era de que todo estudante saísse do segundo grau com um diploma técnico. Os cursos oferecidos eram Técnico em Contabilidade, Secretariado, Magistério ou Eletrônica, preparando a mão de obra para o ingresso imediato no mercado de trabalho.

Sem nenhum esforço, recordo-me de que, naqueles anos, o tradicional e querido Liceu Muniz Freire mantinha o nome de "Científico", termo utilizado pela população durante muitos anos para se referir ao Colegial. Naquela época, a maioria esmagadora dos nossos professores, especialmente de química e física, não era concursada, mas sim composta pelos melhores alunos dos cursos de matemática, química, física e biologia. Alguns nomes ainda estão bem vivos na minha mente.

Embora muitos elogiem e digam que naquela época os professores eram respeitados e a educação era melhor, tenho essas sentenças como afirmações saudosistas de um tempo em que éramos um pouco mais de 90 milhões de pessoas vivendo sob o jugo severo de uma ditadura educacional, onde somente o professor era a autoridade, com o direito de corrigir até com alguns beliscões para comprovar sua ascendência sobre os alunos.

Os anos se passaram e as leis foram mudando, aperfeiçoando nosso sistema educacional. Tivemos uma reforma com a Lei nº 7.044/1982, que removeu a obrigatoriedade do ensino profissionalizante no 2º grau. A Constituição de 1988 estabeleceu a educação como direito de todos e dever do Estado, e garantiu o ensino fundamental obrigatório e gratuito, entre outros avanços.

Nos anos 90, foi criado o ECA – Estatuto da Criança e do Adolescente, pela Lei nº 8.069/1990, que garantia a proteção integral de crianças e adolescentes, em um tempo em que o trabalho escravo e a exploração de menores imperavam nesse extenso país. Ao longo dos anos, como não houve uma atualização percebida na Lei pela sociedade, as críticas grassam de maneira impiedosa, com a afirmação de que ele é um instrumento de formação de delinquentes. Essa afirmação tem a minha total discordância.

Naquela década, também foi promulgada a LDB – Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei nº 9.394/1996), que substituiu completamente a legislação anterior, dividindo a educação em duas etapas básicas: Educação Básica (Infantil, Fundamental e Médio) e Ensino Superior. A lei consolidou a gestão democrática do ensino público e valorizou a formação docente, passando a exigir o nível superior para a atuação na maior parte das etapas.

Anos mais tarde, a Lei do Piso Salarial do Magistério (Lei nº 11.738/2008) estabeleceu um valor mínimo nacional a ser pago aos professores da rede pública da educação básica. Essa legislação veio para corrigir a histórica distorção salarial existente entre os docentes no Brasil.

Em 2012, houve a promulgação da Lei nº 12.711/2012, que regulamentou a reserva de vagas nas universidades federais e instituições de ensino técnico. Uma das exigências da chamada Lei de Cotas era de que 50% das vagas fossem destinadas a estudantes oriundos de escolas públicas, com subcotas baseadas em critérios de renda, além de vagas reservadas para pretos, pardos, indígenas e pessoas com deficiência.

Entre as diversas legislações recentes, a última a ser promulgada foi a Lei nº 13.415/2017, que reformulou o Ensino Médio. Baseada na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), ela flexibilizou o currículo, dividiu a carga horária e deu ao estudante a possibilidade de escolher focar em áreas específicas do conhecimento.

Foram muitos os avanços ocorridos nos últimos 50 anos na educação do nosso país, que viu sua população saltar de 90 milhões para mais de 213 milhões de habitantes. Essas transformações acompanharam as mudanças ocorridas na sociedade e no mundo. Passamos pelos estudos dirigidos da década de 1970 e chegamos aos livros entregues diretamente às escolas através do PNLD – Programa Nacional do Livro e do Material Didático. Esses materiais dividem-se entre os livros reutilizáveis (que devem ser devolvidos após o período de uso, que varia de 3 a 4 anos) e os consumíveis (que ficam com o aluno definitivamente).

Apesar de todas as conquistas das últimas cinco décadas, temos ouvido com muita frequência nos últimos tempos a afirmação de que a nossa educação "vai muito mal", sendo comum atribuírem o método de Paulo Freire como a causa desse suposto fracasso. Isso dói aos meus ouvidos, pois, infelizmente, essa desinformação tem atravessado o país de norte a sul, de leste a oeste.

Paulo Freire, filósofo, educador e Patrono da Educação Brasileira, desenvolveu uma proposta pedagógica que valorizava a bagagem cultural e a realidade que o aluno trazia para a sala de aula. Para ele, a construção do conhecimento se dá justamente nessa troca horizontal de experiências entre o professor e o estudante. Essa abordagem foi um sucesso em Angicos, no Rio Grande do Norte, onde o educador e sua equipe conseguiram alfabetizar 300 trabalhadores rurais em apenas 40 horas, no ano de 1963.

O êxito foi tamanho que, em 1964, o governo de João Goulart incorporou a proposta ao Plano Nacional de Alfabetização. Entretanto, com o advento do Golpe Militar de 31 de março de 1964, o programa foi interrompido e extinto pelo novo regime, sob a justificativa de que o método seria "subversivo".

Ainda assim, é muito comum ver nas redes sociais pessoas atribuindo as deficiências de concordância ou erros ortográficos dos estudantes de hoje ao "Método Paulo Freire". Tal atitude demonstra um profundo desconhecimento da história e a propagação de uma ideia maliciosa, com evidente viés político, que visa apenas espalhar desinformação.

Longe de incitar a subversão, a proposta de Paulo Freire tinha como objetivo acolher o adulto pobre e sertanejo em sua humilde condição de vida, utilizando suas experiências de trabalho e realidade como ponto de partida para a alfabetização. Esse modelo se contrapõe à chamada "educação bancária", na qual o professor apenas deposita conteúdos na mente do aluno.

Qualquer empreendimento que abraçamos e que envolve pessoas precisa partir do acolhimento. Os órgãos públicos — e cito aqui a Secretarias de Educação — vêm realizando nos últimos anos a salutar prática de acolher os novos servidores que passam a integrar seus quadros docentes. Nossas escolas desenvolvem as mesmas dinâmicas com os educadores e alunos que chegam a cada início de ano letivo.

Educar nos dias de hoje pode não ser uma tarefa fácil. Muitas vezes, atribuímos as dificuldades pedagógicas apenas à formação dos professores, mas não podemos esquecer que a educação se faz por meio de uma parceria sólida entre a família e a escola. O papel mais importante dessa base cabe à família, pois essa é uma responsabilidade que a escola não pode, de forma alguma, substituir.

Educar é acolher. Portanto, se você deseja sucesso em qualquer projeto de sua vida, comece pelo acolhimento: ele abre portas, enquanto a sua ausência costuma fechar corações.

É isso por hoje... e vida que segue!



FUTEBOL: O ÓPIO DO POVO

Na década de 70, nas Igrejas Batistas do Brasil, havia, um pouco antes do culto noturno, um encontro chamado União de Treinamento, que acontecia com os adolescentes, jovens e adultos. O objetivo era treinar o povo para melhor trabalhar na Igreja.

Naqueles anos, havia uma revista voltada para os jovens com assuntos variados, e recordo-me de um artigo baseado na expressão usada por Karl Marx no século XIX, na qual ele afirmava que “a religião era o ópio do povo”. Essa expressão ganhou muita força nos anos 70 devido ao crescimento dos movimentos estudantis, sindicais e de oposição às ditaduras militares, que usavam esse referencial teórico para analisar a sociedade.

A teologia da libertação surgiu nesse tempo como uma corrente que tentava inverter essa lógica: em vez de uma religião que alienava (como o ópio), ela se engajava nos movimentos sociais para ajudar os mais pobres contra as injustiças. A metáfora do “ópio” era usada pois, na época de Marx, a substância funcionava como analgésico para aliviar o sofrimento, tanto quanto como droga que entorpecia e tirava o poder de reação.

Mas a pergunta que não pode ficar sem resposta é: o que tem a ver a expressão que Karl Marx usou como linguagem figurada na época em que ele vivia com os nossos dias atuais? Como não posso pedir permissão para parafrasear a expressão dele, tomei a liberdade de utilizá-la como título da nossa crônica da noite de domingo, publicada na segunda-feira. Mas quais são os motivos que nos levam a comparar o futebol ao ópio do povo?

A cada quatro anos vivemos um fenômeno mundial, quando milhares de aparelhos de TV são ligados simultaneamente para assistir à Copa do Mundo de Seleções de Futebol. Neste ano tivemos mais uma novidade, pois aqueles jogos que você só conseguia assistir por assinatura em canais especializados, hoje, basta ligar o seu smartphone, em qualquer lugar que esteja, e assistir ao seu jogo.

A Copa do Mundo de Futebol é o único evento que consegue fazer o povo brasileiro vestir e desfilar com orgulho as cores da Bandeira Nacional, sem medo de ser feliz, ainda que existam grupos políticos que, de maneira ridícula, tentem se apropriar dessas cores que pertencem à Nação Brasileira.

O futebol exerce a magia de nos fazer esquecer os nossos maiores problemas e, durante os dias da competição, nos apegamos a todos os meios de comunicação para assistir aos jogos, extravasando os nossos maiores sentimentos de alegria ou raiva. Nesse tempo muitos ganham dinheiro, mas, na esmagadora maioria, o número de perdedores é infinitamente maior.

O futebol tem o poder de unir os povos das mais variadas nações ao redor do mundo em torno de um aparelho para torcer pela seleção do seu país ou por aquela que eles simpaticamente escolheram durante a competição; mas quando, porventura, a equipe do coração é eliminada, a frustração é generalizada.

O futebol nos faz buscar no nosso íntimo os mais profundos e raivosos sentimentos xenofóbicos, e passamos a odiar pessoas e nações, desejando que sejam eliminadas — e esses sentimentos, muitas vezes, duram anos, atravessados em nossa garganta. Durante anos vivi com a Argentina entalada, até que me libertei desse sentimento, mas sei que tem muita gente que ainda não esqueceu a Croácia ou a Bélgica, e vai viver muito tempo tendo pesadelos com o norueguês Erling Haaland.

O futebol consegue modificar e anestesiar coletivamente uma nação. Na manhã desta segunda-feira, no coletivo, havia um silêncio; e, quando alguém ousava dizer alguma coisa, a conversa era sempre em torno da eliminação do Brasil e da falta de compreensão do porquê de o Vinícius Júnior não ter cobrado o pênalti. Paira no ar uma sensação de entorpecimento.

O futebol tem a capacidade de nos fazer viver a contradição de torcer a favor quando o jogador do meu time de coração faz uma boa jogada na seleção, mas, no fundo do coração, desejar que o atleta do time adversário se dê mal e que ele erre, só para culpá-lo pelo insucesso da equipe. Imagino a sensação de alívio para os vascaínos quando a Noruega fez os dois gols e o atleta da base do Vasco não estava em campo. Pode soar absurdo, mas é assim a cabeça do torcedor.

O futebol dos nossos dias desperta os sentimentos mais estranhos na política brasileira. São “líderes” que marcam os minutos em que o pênalti foi perdido, o número da camisa do jogador que errou e proporcionou o gol do adversário, e a camisa do atleta que fez o gol da vitória. Até o número da camisa do azarado do jogador por quem a bola passou por entre as pernas, no segundo gol da Noruega, não foi perdoado.

A impressão que tenho é de que, em muitos momentos, o futebol funciona como o ópio, metaforicamente falando, pois esquecemos momentaneamente das nossas crises e entramos numa dimensão em que parece que o tempo para e tudo se resolve com boas apresentações e vitórias de nossa seleção.

Depois de 25 dias desde o início da Copa do Mundo, assim que o efeito do futebol na veia vai passando, gradativamente começamos a retornar à realidade, que para muitos é extremamente dura e com poucas perspectivas de saída a curto prazo.

Que a magia do futebol seja aplicada na vida quando enfrentarmos nossos problemas coletivos, como a busca por melhoria de vida para a população, educação de qualidade para nossas crianças, mais segurança para o nosso povo, respeito aos nossos idosos e às escolhas religiosas que as pessoas fazem num país de extensão continental como o Brasil.

Que, passada a euforia do futebol, essa dedicação seja colocada sobre a vida em favor da compreensão mútua e do prazer de viver; se não fazendo tudo o que gostaríamos para tornar esse mundo melhor, mas tudo o que fizermos, que seja de coração, dando o melhor do nosso ser para que a nossa vida e a do próximo tenham sentido.

Sabedor de que, entre a data de ontem até a próxima Copa do Mundo, teremos muitos campeonatos nacionais e torneios que nos mobilizam (embora a anestesia não seja geral), desejo que essa caminhada seja com menos atropelos e menos decepções como aquela vivida ontem.

É isso por hoje. Enxugue as lágrimas e lembre-se... é vida que segue!

sábado, 4 de julho de 2026

CEMITÉRIO, LUGAR ONDE TUDO TERMINA?

Cresci em Cachoeiro de Itapemirim, em um local que, naquele tempo, se chamava bairro dos Ferroviários e, mais tarde, recebeu o nome de Nossa Senhora da Penha. O primeiro nome foi em função da quantidade de homens que trabalhavam na rede ferroviária e moravam na parte baixa, onde ficam o Hospital Evangélico e o Instituto do Coração — referência nesse tipo de tratamento de problemas cardíacos no sul do Estado.

Nossa casa fica do lado direito da Rua Maria Dulce Garioli, nome dado em homenagem a uma antiga moradora. Naquela época, não existia esse conceito de limites de território que temos hoje; entre a nossa casa e a da vizinha, a divisa dos terrenos era uma cerca viva, conhecida como sansão-do-campo.

Lembro-me bem do meu velho pai conversando com a vizinha ao lado de nossa casa sobre a vida, oportunidade em que ela usou uma frase interessante que nunca mais esqueci: "Sr. Osmani, na ordem natural das coisas os velhos morrem primeiro, mas não existe ordem natural nessas coisas". E, desde aquele tempo, percebi o quanto ela tinha razão.

Todos nós temos certeza plena, desde que nascemos, de que um dia vamos morrer. Não quero entrar em questões teológicas, mas puramente humanas — coisas do nosso dia a dia que mexem profundamente com o nosso emocional. Costumo dizer que só pensamos na finitude da vida quando perdemos pessoas que nos são próximas e queridas.

Estava assistindo, na tarde deste sábado, a um vídeo do Cemitério Municipal de Cachoeiro gravado pela minha irmã. Eram imagens de sepulcros, pois ela fora ao sepultamento da nossa tia Laurinda Silva, uma das irmãs mais novas da minha mãe. No vídeo, a Solange disse que estava em um lugar onde as pessoas dizem que tudo terminou. Mas será que é assim que tudo termina?

Não creio que a história de Laurinda tenha terminado ali. Muito pelo contrário, acredito que os feitos dela ficarão para sempre em nossos corações, até que a vida deixe de existir em nossas jornadas terrenas.

Laurinda foi uma dessas irmãs que, na juventude, nunca deixaram de viver de maneira alegre e divertida, porém jamais se descuidaram de amparar e ajudar quem precisava. Maria, sua irmã e minha mãe, nunca deixou de reconhecer toda a ajuda que recebeu dela por ocasião do nascimento da minha irmã mais nova.

Laurinda viveu para sua família com todas as forças do seu ser. Nos seus 82 anos de vida, teve o prazer de ver o nascimento dos seus netos. Como a vida é sempre cheia de surpresas agradáveis e outras não, nesse tempo ela passou pela dura experiência de sepultar a sua filha Josiane, fato que marcou para sempre a sua trajetória.

Laurinda era uma mulher muito forte, e isso ficou evidenciado pela quantidade de batalhas que enfrentou na vida, sem nunca esmorecer nos momentos mais difíceis. Nos últimos anos, quando soube da doença, ela a encarou com dignidade, como fazem as pessoas que são gratas e conscientes do privilégio de viver.

Laurinda, ao contrário da expressão popular de que o cemitério é o lugar onde tudo termina, teve apenas a sua história de vida na dimensão humana encerrada. Ela continuará viva na mente e no coração dos irmãos Vivaldo, Maria e Lucy. Sempre gostei da maneira como eles se preocupam uns com os outros e da importância que dão às visitas mútuas como forma de demonstração de carinho e respeito.

Tive a oportunidade de visitá-la com a minha mãe no mês passado. Pudemos conversar com ela no leito, relembrar muitas histórias de nossas vidas e o quanto eu, mesmo quando criança, gostava de ver e ouvir as peripécias que ela fazia e muitas outras histórias.

Foram mais de oito décadas de vida e, como sobrinho, tenho certeza de que o meu pensamento resume o sentimento dos parentes, da filha Carla e dos netos: gratidão pelo tempo que passamos juntos.

Quero terminar desejando que Deus possa confortar os nossos corações, pois o momento da despedida é sempre muito duro. E em Apocalipse 21:4, assim lemos: “E Deus limpará de seus olhos toda a lágrima; e não haverá mais morte, nem pranto, nem clamor, nem dor; porque já as primeiras coisas são passadas.” Portanto, podemos guardar todas as nossas memórias com todo o afeto e ficar convictos de que nem tudo termina no cemitério.

É isso por esta madrugada...


terça-feira, 26 de maio de 2026


MAS EM NADA TENHO A MINHA VIDA POR PRECIOSA...

Na minha história de vida tive várias tias, porém uma delas chamada Maria Gomes Caitano, também conhecida como Babá, era irmã do meu saudoso pai. À medida que fui crescendo, descobri que ela trabalhava na Santa Casa de Misericórdia de Cachoeiro. Era enfermeira e, além de se dedicar ao seu ofício, levava uma vida alegre, leve e solta com as suas colegas de trabalho e familiares. Sua juventude, através do meu olhar de sobrinho, era plenamente feliz.

No início dos anos setenta, eram os tempos da Jovem Guarda no Brasil, representada por um grupo de jovens que eram idolatrados com suas canções de rock e “iê-iê-iê” (vertente melódica inspirada nos Beatles) e que fizeram um enorme sucesso. Lançaram a moda de uma camisa quadriculada com gola dupla que, para os padrões locais, era linda. O primeiro e único menino a ter uma camisa daquela foi o Robertinho, presente da minha querida tia Babá. Fiz um tremendo sucesso, só não conquistei uma gatinha por ser tímido.

Minha tia tinha uma disposição para fazer muitas traquinagens. Recordo-me de certa vez que, ao chegar em casa, percebi que no pé de abacate havia um galho quebrado. Ao nos questionarmos, fomos surpreendidos com a explicação dela: "Subi para tirar uns abacates e, de repente, o galho não suportou o meu peso e desci com abacate e tudo ao chão."

Os anos foram passando e tornei-me adolescente. A primeira casa onde agora a Senhora Conceição e seu esposo foram morar foi no Bairro Coronel Borges, bem próximo da primeira escola da APAE. Lembro-me de ter ido algumas vezes lá; pena que não havia abacateiros e nem mangueiras para serem escaladas.

O tempo passou e ela foi com o esposo morar perto da nossa casa, e formamos uma bela parceria: agora eu era o entregador de marmita para o tio Francisco, no ponto de ônibus que ficava perto do Cinema Broadway, ao lado da ponte de ferro de Cachoeiro de Itapemirim. Durante aquele tempo, conviver com a minha tia diariamente era prazeroso, pois eu me sentia gente grande.

À medida que o tempo foi passando, chegou a primeira menina, Fabiane, que alegrou a família e foi uma grande festa. A menina começou a crescer e, depois de dois anos, chegou mais uma menina, Flávia, e foi outra grande festa. As meninas começaram a crescer e era preciso construir uma casa maior, e isso foi feito com muito trabalho do casal Babá e Francisco.

Depois de enfrentarem muitas barras e batalharem por recursos, construíram uma bela casa. Oito anos após o nascimento de Flávia, a família ficou completa com a chegada de Francisco Júnior. Foi uma alegria, e Conceição praticamente não conseguia se conter. Mas um fato sempre foi marcante no desenvolvimento das crianças: desde muito cedo foram encaminhadas à Igreja, mas o aprendizado maior sempre foi pelo exemplo, e não pelas palavras.

Depois desse tempo, toda a família se mudou para a Serra, na Grande Vitória, deixando saudades e a impossibilidade de conversar aos gritos. É que a casa da minha mãe ficava na rua de baixo e a dela na rua de cima; no meio havia um grande vale e, para economizar telefone, muitas vezes nossas conversas eram expostas à vizinhança. Tempos maravilhosos.

Os anos se passaram e, pela ordem natural da vida — embora não exista ordem natural para esse fato —, a família cresceu com o casamento de Fabiane com Christian e a chegada dos netos Níkolas e Sophia, que praticamente visitam o Brasil a cada ano, fazendo a alegria da família.

Mesmo morando distante, Babá nunca deixou de exercer aquilo que mais lhe trazia prazer: ajudar o próximo. Muitas vezes ela deixava a família na Serra e viajava para passar dias em Cachoeiro para acompanhar pessoas que estavam doentes e que precisavam de ajuda. Inúmeras pessoas foram acolhidas por ela ao longo de sua vida, pois tinha prazer em servir.

Durante a sua vida, um fato sempre me chamou a atenção: a amizade de Babá com Maria Gomes, minha querida mãe. As duas, desde os primeiros dias de casamento da minha mãe com o irmão dela, desenvolveram uma profunda amizade, bonita de se ver — fato contado pela minha mãe. Falavam-se sempre duas vezes durante o dia: uma vez pela manhã e outra à tarde, infalivelmente. Sei que esses telefonemas farão muita falta à minha mãe Maria.

Escrever sobre a Babá é fácil, pois desde o tempo em que me entendo por gente — gosto dessa expressão —, sempre vi bondade na sua vida e no seu jeito de ser. Sou grato a Deus pela vida da minha saudosa tia e tenho certeza de que ela amou as pessoas de maneira incondicional e foi muito amada por todos. A expressão desse amor, com o coração grato, nós vimos no seu velório, pela quantidade de amigos que vieram de longe para prestar-lhe as últimas homenagens.

Como sobrinho, sentirei falta das brincadeiras durante os nossos encontros e das conversas. A última aconteceu no dia 1º de maio. Foi um tempo muito bom de brincadeiras, lembranças e comunhão. Um fato curioso foi que liguei várias vezes para minha mãe e ela não atendeu, mas a Babá foi até o quarto dela, pegou o telefone, ligou, e a Dona Maria prontamente a atendeu. Logo reclamei: — Como a senhora atende a minha tia e não ao seu filho? Gargalhamos bastante!

Foi tudo muito rápido, e ver minha tia em um hospital nas condições em que a encontrei foi muito difícil. Mas, em meio a todo aquele sofrimento, algo me chamou a atenção: a maneira digna e cheia de fé com que ela enfrentou a doença. Não saiu daquela boca nenhuma palavra de reclamação e, em todos os momentos em que podia, ela apenas agradecia a Deus. Recordei-me de Jó 1:22: “Em tudo isso, Jó não pecou nem culpou Deus”. Babá demonstrou o tempo inteiro atitudes de fé, na certeza de que o Redentor vive e agora Ele a tem nos Seus braços eternamente.

Sei que o Tio Francisco e a Flavinha sentirão falta da esposa, mãe, companheira e amiga, numa casa que ficou maior devido à ausência de Conceição. Imagino o quanto foi e tem sido duro para a Fabiane, como filha, estar longe dos acontecimentos que vivemos na semana passada. Não vai ser fácil explicar às crianças que a avó está nos braços do Pai. Crianças têm muita dificuldade de compreender tempos de perdas e de luto. Sem contar que perderam recentemente o avô por parte de pai.

Babá viveu o tempo inteiro para os seus familiares, tendo contribuído para a criação dos seus três filhos ao lado do seu marido. Fizeram um excelente trabalho, e as provas estão bem diante de todos nós.

Babá enfrentou todo o processo da doença com muita dignidade e com a serenidade que somente pessoas de fé conseguem ter. A cada momento em que recobrava a consciência, sempre evocava o nome de Deus com um sentimento de gratidão.

Babá nunca deixou de enfrentar os problemas da vida com a alegria que permaneceu com ela até o momento em que Deus a convocou às mansões celestiais. Foi uma pessoa que procurou viver com intensidade as palavras de Paulo em Filipenses 4:4: “Alegrai-vos sempre no Senhor; outra vez digo, alegrai-vos.”

Babá, com sua vida, conseguiu acompanhar diversas famílias e reuniu no seu falecimento várias gerações de pessoas amigas que não deixaram de se juntar para prestarem as últimas homenagens à amiga querida, que ficará para sempre nos nossos corações.

Babá viveu com sabedoria e desapego, assim como o Apóstolo Paulo: “Mas em nada tenho a minha vida por preciosa, contanto que cumpra com alegria a minha carreira, e o ministério que recebi do Senhor Jesus, para dar testemunho do evangelho da graça de Deus.” (Atos 20:24). Entendo como Ministério o cuidar de pessoas a tempo e fora de tempo, e isso ela fez com perfeição.

Babá não foi somente filha, mãe, avó, esposa, sogra, cunhada, amiga e irmã em Cristo Jesus, mas foi alguém que teve a oportunidade de conhecer e segurar seus netos, bem como uma quantidade de crianças que praticamente nasceram nos seus braços.

Sou grato a Deus por Ele ter sido bondoso e misericordioso, dando-nos a presença de Tia Babá conosco por variados anos... sessenta e seis... cinquenta e dois... sessenta e nove... dez... seis... tempo que jamais será esquecido.

“Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o Reino que vos está preparado desde a fundação do mundo.” (Mateus 25:34). Agora, Babá faz parte desse Reino, para onde todos nós um dia iremos.

Em Cristo... cheio de saudades eternas!!!