.

.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026


Um encontro não tão casual...

O dia seria uma terça-feira como muitas outras, mas com uma diferença, pois hoje é o último dia do carnaval no Brasil.

Prometera à minha mãe que a levaria com a minha irmã Sueli a Marataízes, à casa da minha outra irmã, Leonora. Tudo pronto e saída marcada para as 08h da manhã; saímos às 09h30, e está tudo certo. É feriado!!!

Foi uma viagem bem tranquila e, assim que chegamos às imediações da Lagoa Funda, nos dirigimos à casa, que fica exatamente a cinco minutos da praia.

Tudo pronto para descer para o mar: os apetrechos foram colocados no porta-malas e prontamente fui de carro levar o meu tesouro mais precioso de 88 anos, minha querida mãe, Dona Maria. Foi só assim que percebi que o sol das 12h é escaldante!

Chegar à praia envolve escolher um bom espaço e montar a sombrinha, mas é preciso ver para que lado o vento está soprando para não carregar os equipamentos (saco térmico, cadeiras, cangas, toalhas etc.) e, apesar de todo o trabalho, ficou tudo resolvido.

Sentei-me, peguei o livro da vez e continuei a ler e a folheá-lo quando percebi que havia chegado uma nova mensagem no meu smartphone. Na verdade, nem sei como consegui ouvi-la, pois o vento forte e o barulho das ondas não foram suficientes para abafar uma mensagem que vinha do coração.

A impressão que tive é que você deve ter me ouvido falar de sua pessoa várias vezes nesta semana. Externei, com muito carinho e gratidão a Deus, a minha felicidade pela sua existência. Claro que minha mãe sempre me diz: “Roberto tem uma facilidade de gostar de todo mundo.” Em parte, ela tem razão, mas você é especial.

A conversa fluiu como deveria e, após uma troca intensa de mensagens — às vezes escritas, outras gravadas pelo WhatsApp —, concluímos com a sensação de que, nos últimos anos, tenha sido um dos nossos mais belos diálogos.

Sempre admirei seu jeito sensato de ser: ideias claras, posições definidas e bem equilibradas, firme nas suas decisões e, definitivamente, uma mulher abençoada por Deus.

Você que lê neste momento deve estar com o pensamento nas nuvens, tentando descobrir que conversa foi essa. Mas, se queres um conselho de amigo, eleve sua imaginação até as estrelas, pois, enquanto isso, vou cuidando da minha joia preciosa aqui na terra.

Deixe de ser uma pessoa curiosa e continue lendo-me, que em breve trarei mais notícias...

É isso por hoje... é vida que segue!!!

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

I Shot the Sheriff, a música que assusta!

Como sempre, saí de casa bem cedo e entrei num ônibus espaçoso, mas com pouquíssimo espaço entre as pessoas, pois muita gente teve a mesma ideia de ir para o trabalho às 05h da manhã — madrugada para alguns. Gente estranha!

Passear de carro é muito bom, mas andar de coletivo é sempre uma caixinha de surpresas. Pela manhã, normalmente, muitas pessoas mantêm a fisionomia fechada, e algumas parecem estar com raiva por terem que acordar cedo. Confesso que, para não fugir das minhas esquisitices, sou do tipo que gosta de acordar cedo e não tenho problema algum em cumprimentar as pessoas, sempre com bom humor e um sorriso. Nem sempre sou correspondido, mas, como bom brasileiro, não desisto nunca.

Desci da primeira condução no final da Rodovia das Paneleiras, que é paralela ao Aeroporto de Vitória, bem diante de um supermercado que tem nome de santo e evoca o pai terreno de Jesus. Daquele ponto em diante, seguindo em direção ao norte do Estado, tem início a Avenida Mestre Álvaro, que é a BR-101, que atravessa todo o Estado do Espírito Santo.

Descer naquele local é sempre uma grande aventura, pois é um grande encontro de veículos que vêm da Rodovia do Contorno, de Cariacica e da Serra. Na direção de quem desce para Vitória, está o Vitória Apart Hospital e um grande hotel que fica próximo ao Viaduto Profa. Sandra de Assis Malani. Porém, pela largura das duas pistas, o local bem que merecia uma passarela, pois isso evitaria que as pessoas arriscassem perder suas vidas em uma travessia tão perigosa.

Depois de atravessar a avenida e, agora seguro no ponto de ônibus, visualizei uma mulher que parece ser descendente de asiáticos e sempre embarca naquele local. É uma senhorinha bem vaidosa e, todos os dias, religiosamente, passa protetor solar e, parece-me, usa brilho nos lábios. Dias desses, por acaso, trocamos duas ou três palavras quando o nosso coletivo nos ignorou e passou direto.

Após subir no ônibus, bem geladinho, por volta das 05h20 da manhã, fiquei em pé para compensar as horas que passo sentado durante o dia, e meus pensamentos divagaram. De repente, me vi nos anos 70, murmurando um reggae escrito por Bob Marley em 1973, mas que ficou famoso com a gravação de Eric Clapton, em 1974, chamado I Shot the Sheriff (Eu Atirei no Xerife).

Num passado longínquo, fui baterista na Igreja Batista do Aquidabã, em Cachoeiro, e tocava no Conjunto e Grupo Emanoel. O primeiro era um grupo misto, e o segundo, apenas de rapazes. Como sou movido ao som da percussão, se uma música vem à minha cabeça, sinto o pulsar do ritmo no meu corpo e, por vezes, pego-me murmurando ou reproduzindo sons com leves gestos e expressões corporais.

Permaneci em pé, próximo à porta do meio do coletivo, pensando no reggae e me sentindo um Eric Clapton, pois o toque daquela guitarra é mágico e a bateria é sensacional — tudo isso enquanto observava a paisagem. A música tem o poder de nos levar a lugares que marcaram nossas vidas e a momentos inesquecíveis em nossas memórias afetivas.

Havia uma senhora que assistia a alguns vídeos no celular enquanto o ônibus prosseguia em seu itinerário, e eu viajava em meus pensamentos e movimentos praticamente involuntários, ao ritmo da música presente em meu ser, quando percebi que, de repente, a senhora pareceu tomar um susto. Ela me olhou com cara de poucos amigos, guardou o telefone na bolsa e fechou o semblante. Aquele movimento me trouxe de volta à realidade.

No início, fiquei sem entender, mas, depois de alguns segundos, cheguei a algumas conclusões: acredito que ela achou que eu estava bisbilhotando os vídeos que ela assistia; ou talvez tenha pensado que eu fosse um maluco tentando cantar uma música em “inglês de caminhão”, e ela entendeu a letra e imaginou que eu atiraria em alguém; ou pode ser que tenha ficado com medo, porque ela estava de costas para a porta, e ali seria um local fácil para pegar o aparelho e descer correndo.

São três prováveis hipóteses que surgiram após a lembrança de uma canção, e logo pensei: I Shot the Sheriff, a música que assusta. Claro que, das três possibilidades, fico com a segunda, pois sei que, quando me empolgo com certas canções, primeiro penso como Milton Nascimento: como não fui eu quem as fez, normalmente as canto sem nenhum tipo de constrangimento — mas toda empolgação em excesso sempre tem um preço a pagar.

Prosseguimos a viagem e logo cheguei ao ponto onde desceria. Observei que a mulher me pareceu mais relaxada. Fora do coletivo, aproveitei para respirar o ar puro da manhã e cantei mais alto, sem me preocupar com o volume nem mesmo com as pessoas que me observavam... I Shot the Sheriff (Eu Atirei no Xerife). Mas calma, não atirei e nunca atiraria em ninguém, pois, inclusive, sou contra o porte de armas. Pessoas armadas se tornam valentes, perigosas e, normalmente, inconsequentes.

É isso por hoje... é vida que segue!


domingo, 15 de fevereiro de 2026

Um homem com uma Bíblia na mão

Nesse domingo de carnaval, no primeiro grande e esperado feriado de 2026, antes de o país começar a funcionar de verdade para muita gente, o dia amanheceu com um sol bem escaldante, bom para quem gosta de praia.

Saí de casa não tão cedo como de costume, embarquei num coletivo que me levou até uma determinada altura do bairro Carapina e entrei em outro ônibus até o Terminal de Laranjeiras, que, naquele momento, estava vazio. Mas, à medida que o dia avançava, o povo da praia foi chegando, e muitos foliões voltavam da noitada.

Sentei-me com meu livro do dia, absorto na leitura, fato que me fez desligar dos acontecimentos ao meu redor, até o momento em que um senhor desceu do ônibus, trajando um terno preto, sapatos de cor bege, camisa azul-clara e ostentando uma grande barba que, por sinal, estava bem aparada.

Naquele instante, desviei meu olhar para aquele senhor, que estava muito bem trajado para aquele momento do dia. O homem se posicionou num local estratégico, e fiquei esperando que ele proferisse o seu sermão. Gosto de ouvir pregadores em espaços abertos, pois muitos deles normalmente têm abordagens diferentes das tradicionais.

O volume de pessoas e foliões foi aumentando, e o povo passava ainda mais apressadamente. Minha expectativa aumentava com a possibilidade de ouvi-lo. O tempo foi passando, e a pregação não acontecia, mas ele estava firme, balbuciando palavras que eu não conseguia entender ou ouvir, pelo fato de estar distante.

Depois de dez longos minutos, ele se aproximou do local onde eu estava sentado, e pude observar que aquele senhor mal falava e não conseguia sequer pronunciar uma palavra, mas prosseguia firme na sua missão. Acredito que ele tinha algum problema nas cordas vocais, mas não desistia da sua tentativa de falar.

Olhei aquele homem com a Bíblia na mão e fiquei tentando imaginar o juízo que as pessoas fariam dele. Para alguns, ele era um desequilibrado, pois, num calor imenso da Grande Vitória, estava com sua roupa especial de ir à igreja num terminal de ônibus onde as pessoas não se importavam com ele.

Outros poderiam considerá-lo um religioso do tipo fanático, que não se incomodava em ser ridicularizado diante das pessoas. Há muita gente avessa a qualquer religião, especialmente àquelas cujos seguidores costumam carregar uma Bíblia na mão. Esse povo não é bem-vindo em muitos meios.

Entretanto, existem pessoas que não têm o menor interesse em saber se há gente que carrega Bíblia ou não, ainda mais quando a época é de carnaval e elas não têm tempo para observar esses detalhes. A vida é corrida demais para se perder tempo com coisas de gente estranha que usa terno debaixo de um forte calor.

Por outro lado, existe gente curiosa que gosta de observar as pessoas, à espera de que elas lhes tragam curiosidades que podem ser traduzidas como um jeito novo e diferente de encarar e viver essa jornada que chamamos de vida. A Bíblia diz que a vida é como um vapor que aparece por um tempo, mas logo se desvanece. É tão rápida que há gente que se perde no processo de encontrá-la.

Sentado onde estava, permaneci observando aquele homem com um olhar diferente, acredito, da maioria dos transeuntes daquele terminal. Vi naquele local um homem de muita fé, pois, apesar do calor e de ninguém sequer parar para ouvi-lo, ele não pensou em desistir um momento sequer da sua missão. Muitas vezes temos uma fé que não suporta enfrentar um grupo de amigos, uma sala de aula e, muito menos, a nossa família.

Enxerguei naquele senhor um homem de profunda determinação. Ele desceu do ônibus e começou a falar, mesmo sem auditório ou qualquer pessoa interessada. Estava determinado a balbuciar palavras ininteligíveis, mas o importante era dar o seu recado. Há gente que tem voz bonita e fala muito bem, mas não tem a determinação daquele senhor.

Finalmente, vi um homem destemido, pois, além de não ter medo de se expor entre plumas e paetês numa manhã ensolarada de domingo, prosseguiu cumprindo sua missão de testemunhar, obedecendo a uma ordem apostólica de Paulo, em 2 Timóteo 4:2, para pregar “a tempo e fora de tempo”, em qualquer circunstância. Ele cumpriu à risca essa determinação.

Ah, minha condução chegou, e segui para a morada de Laranjeiras, para visitar uma tia querida, e deixei no terminal o homem com a Bíblia na mão.

É isso por hoje... é vida que segue!


 

domingo, 18 de janeiro de 2026


Quem pagou o pato fui eu…

Existem duas versões para a origem da expressão “quem vai pagar o pato”. Uma é italiana e fala sobre as exigências de um pato que foi vendido por um camponês a uma mulher em troca de favores sexuais. Como o homem passou a exigir mais, ela se recusou a atendê-lo e, depois de muita discussão, o marido chegou e, sem entender a situação, resolveu pagar o pato em dinheiro.

A segunda versão, oriunda de Portugal,  conta-se que, nas feiras medievais, havia um pato de madeira e, em todas as confusões que surgiam sem que se identificassem os causadores dos imbróglios, o pato era apontado como culpado pela situação.

Os séculos se passaram e a expressão continuou sendo usada no mesmo sentido: quem paga o pato é aquele que leva a culpa por algo que não fez. Às vezes, é um pato cheio que traz dor física, e não no bolso.

No sábado, resolvi tomar café na minha padaria preferida, em Coqueiral de Itaparica, pois precisava resolver outros problemas relativos à minha saída do apartamento onde morei por três anos, na Quinta Etapa, como é conhecido o condomínio. Depois de um bom tempo degustando meu desjejum, saí tranquilamente para voltar para casa.

Resolvi passar no supermercado para comprar material para o lanche e, antes da entrada, um fato chamou minha atenção: duas senhorinhas brigando para decidir quem ficaria com o carrinho de compras do estabelecimento. Curioso, diminuí o ritmo das minhas passadas, pois discussão entre pessoas idosas é sempre muito interessante.

Depois de resolverem quem conduziria o carrinho, surgiu outra dúvida: entre as duas fileiras de caixas — uma da esquerda e outra da direita — há uma prateleira de uns três metros; logo, existem dois lados para chegar ao interior do mercado. Aquela que estava sem o carrinho queria passar pela esquerda, e a outra, pela direita. Nova briga! Nesse momento, resolvi olhar alguns produtos de que não precisava, só para ver qual decisão tomariam.

Mais uma vez reduzi meus passos. Elas decidiram que cada uma seguiria seu caminho, e eu resolvi seguir o meu. Entretanto, a senhora da direita ficou com raiva e empurrou o carrinho com tanta força que, acredito eu, sem querer, a parte que sustenta a rodinha bateu no meu calcanhar, e a pancada causou uma dor profunda. Ela, totalmente desconcertada, veio pedir desculpas, e a outra lhe deu uma bronca e disse:— Coitadinho do menino! Você, com suas manias e teimosias… e quem pagou o pato foi ele. Ambas me socorreram, e a briga acabou.

Agradeci, dizendo que estava tudo bem, que eu poderia continuar dali em diante sem ajuda e que elas poderiam ficar despreocupadas. Ah, se elas soubessem que, como um contador de histórias, eu estava por perto porque bisbilhotava a discussão delas! Mas, infelizmente e literalmente, pela minha curiosidade, quem pagou o pato fui eu.

É isso por hoje… é vida que segue!!!

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Todo fim de tarde é sempre assim…

Voltar para casa é um dos meus momentos favoritos. Mas, se você se precipitou em pensar que não gosto de trabalhar, está enganado…

Pensar na volta para casa é imaginar o retorno ao aconchego de um lugar que, por mais simples que seja, é o nosso cantinho — onde nos sentimos seguros e à vontade para mostrar quem realmente somos, sem máscaras.

Ao longo da minha vida, morei fora da minha cidade natal a maior parte do tempo e aprendi a recomeçar e a amar os lugares por onde passei: Rio de Janeiro, Ecoporanga, São José dos Campos, Cariacica, Dakar, no Senegal, e Lomé, no Togo (ambos na África). Nos últimos anos, tenho vivido em Vila Velha…

Tenho aprendido que você pode dar a volta ao mundo, mas o melhor movimento que sempre pode fazer é o de voltar para casa — especialmente para Vila Velha, pela Terceira Ponte.

É uma volta com sabor diferente, pois a ponte, além de encurtar o retorno para casa, encanta e me ensina lições que passam despercebidas em nossas lides diárias…

Aprendo que contemplar a Baía de Vitória me faz lembrar do verso bíblico: “Os céus declaram a glória de Deus; o firmamento proclama a obra das suas mãos.” (Salmo19:1–2). Não consigo deixar de expressar o bem-estar que essa vista me proporciona.

À medida que o ônibus avança rumo ao vão central, avisto o complexo militar do 38º Batalhão de Infantaria General Tibúrcio, na Prainha, unidade histórica do Espírito Santo. Aprendo que, durante a Segunda Guerra Mundial, muitos soldados brasileiros deram suas vidas na FEB — Força Expedicionária Brasileira. Tive, inclusive, a oportunidade de conhecer o pastor João Filson Soren, capelão naquela campanha militar na Itália.

Ao atingir o terço final da Terceira Ponte, ao olhar para o Convento da Penha, localizado na Ladeira da Penitência — via de acesso ao Santuário, na Prainha, em Vila Velha —, percebo o quanto aquele lugar é sagrado. Muitas pessoas o visitam para pagar promessas e agradecer pelas graças alcançadas. São centenas de histórias que, com certeza, muitos poderiam — e gostariam — de testemunhar.

Ao concluir a travessia da Terceira Ponte, percebo que não é preciso muito esforço para compreender a bondade de Deus, mesmo após viver um ano turbulento, como foi 2025, com experiências que me levaram a uma profunda reflexão sobre a vida e sua brevidade.

Olhar para o mar, com a impressão de que ele se encontra com o céu, é uma visão que enche os meus olhos. E todo fim de tarde é assim… cheio de esperança de que, mesmo com a noite chegando, aquelas imagens permanecerão guardadas no meu coração.

É isso por hoje… é vida que segue!

 

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

A invisibilidade nossa de cada dia…

No sábado anterior à semana do Natal, precisei ficar em casa fazendo uma faxina, bem no meu tempo, pois precisava devolver o apartamento. E, por incrível que pareça, não conversei com ninguém, nem mesmo com a minha mãe, pessoa com quem falo todos os dias por telefone.

No final do dia, fui ao supermercado e pensei em estender a minha experiência de ficar calado. Coloquei os fones de ouvido e, pacientemente, fechei a porta e desci as escadas com cuidado, pois, mesmo o condomínio tendo trocado as lâmpadas, enquanto não realizarem a manutenção adequada, elas continuarão queimando.

Fora do prédio e caminhando ao som da poesia de Gladir Cabral, cantada por João Alexandre, passei pela portaria e, como havia um grande movimento, consegui passar anonimamente, invisível. Atravessei a avenida e segui com o olhar fixo no horizonte, deixando que o meu corpo fizesse o trajeto, sem me importar com o movimento ao meu redor. Que coisa estranha!

Um casal de velhinhos caminhava na mesma direção que a minha; simplesmente passei por eles como se não existissem. Adiante, encontrei uma senhora de meia-idade andando com muita dificuldade, pois aparentemente apresentava uma contusão no tornozelo. Desviei o meu olhar para o outro lado e segui o meu caminho. Nunca me senti tão mal com tal experimento.

Entrei no supermercado como se invisível fosse, embora conhecesse grande parte dos funcionários que ali trabalham. Caminhei tranquilamente pelas prateleiras sem me deter ou conversar com qualquer pessoa, especialmente com algumas senhorinhas que adoram compartilhar conhecimento e com quem aprendi a comprar limão, melão, quiabo e, acreditem, a desidratar hortelã. Naquele dia, não estava disposto a receber qualquer lição!

Peguei os produtos e fui para um caixa totalmente estranho e, bem no automático, respondi que não queria o CPF na nota. Ensacolei minhas compras e segui o meu caminho por uma rota diferente, o que aumentava a sensação de ser invisível. Era uma estranha percepção de que o mundo girava ao meu redor diante da minha indiferença. Com certa dificuldade, atravessei a pista fora da faixa e retornei ao meu condomínio e à minha realidade.

Ao passar pela portaria, naquele momento, cumprimentei efusivamente os porteiros e, como sempre, conversamos, especialmente sobre futebol. Após a conversa, despedi-me com a frase que sempre uso: “até daqui a pouco”, pois sempre saio muito cedo de casa aos domingos, assim como nos outros dias. A paz retornou ao meu coração. Essa experiência de viver e tentar ser invisível me fez pensar em algumas questões bem sérias.

No final do dia, após meus experimentos, fiquei refletindo sobre como deve ser difícil a vida de pessoas que não têm teto e vagam pelas ruas das nossas cidades. São seres invisíveis, pois passamos por eles todos os dias e agimos como se não existissem. É muito comum encontrarmos pessoas em situação de rua que, ao pedir alguma coisa, demonstram agressividade, e a vontade que temos é agir de acordo com a terceira lei de Newton: toda ação tem uma reação. Esquecemos que elas são invisíveis e só são notadas quando se manifestam, às vezes de maneira agressiva, pois essa é a forma como acreditam que o mundo funciona.

Mas a invisibilidade não acontece apenas nos locais onde as pessoas vivem à margem da sociedade. Infelizmente, muitas vezes, nos órgãos públicos, dia após dia, vivemos a mesma situação. É comum que pessoas passem umas pelas outras no ambiente de trabalho como se não se conhecessem. Participam de reuniões em que discutem como realizar o trabalho com excelência e, no primeiro encontro nos corredores do setor, esquecem tudo o que foi aprendido no dia anterior.

Fico imaginando o que se passa na mente das pessoas quando se tornam invisíveis por conveniência e se sentem bem com isso. Tentei agir como muitos fazem no dia a dia, mas o sentimento que invadiu o meu coração foi de melancolia, pois entendo que a vida se torna muito triste quando se vive em um mundo que parece grande, mas acaba se tornando minúsculo.

Lembro-me da parábola contada por Jesus sobre um homem que descia de Jerusalém para Jericó e foi assaltado, sendo deixado quase morto. Um sacerdote passou pelo moribundo, mas estava ocupado demais com suas obrigações no templo e nada fez. Em seguida, veio um levita, que cuidava da música nas celebrações; passou de largo e seguiu seu caminho. Finalmente, veio um samaritano (povo desprezado pelos judeus), que parou, socorreu o ferido, levou-o a uma hospedaria, deixou algum dinheiro e seguiu seu caminho.

O que aprendemos com essa parábola contada por Jesus? O modus vivendi do sacerdote era: “o que é meu é só meu”. Vou viver a minha vida com todas as minhas conquistas e convicções sem enxergar o outro.

O levita, que cuidava dos utensílios do tabernáculo, do templo judeu e que hoje seriam os responsáveis pela música, também não agiu. Ninguém trabalha nessa área sozinho, mas, naquele momento, seu modus vivendi era: “o que é meu é meu, mas eu mostro para você”.

Finalmente, o samaritano, ao ver o homem quase morto, foi ao seu encontro com todo o altruísmo de uma alma piedosa. Cuidou do desconhecido, pois o seu modus vivendi era: “o que é meu é nosso e precisa ser compartilhado”.

No século XXI, neste terceiro milênio, vivemos a carência de pessoas que pratiquem o princípio de vida do bom samaritano, pois para ele não existiam pessoas invisíveis. Ele usou de misericórdia com um estranho que, historicamente, era inimigo do seu povo.

Tenho plena consciência de que não podemos ajudar todas as pessoas, mas certamente podemos começar enxergando os menos favorecidos da nossa vizinhança, os nossos colegas de trabalho, as pessoas que encontramos nos percursos do dia a dia e, especialmente, os nossos familiares, começando pela nossa casa.

Infelizmente, a invisibilidade foi a tônica de muitas relações ao longo do ano que se finda, mas ainda precisamos falar sobre esse assunto ao apagar das luzes de um tempo em que as relações estão cada vez mais impessoais.

Ainda que o nosso entorno esteja repleto de pessoas que insistem em tornar as outras invisíveis, precisamos quebrar esse ciclo, tornando o outro visível a partir das nossas ações.

É isso por hoje… é vida que segue!


 

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025


Thelma, vem cear! O Mestre chama!

Thelma sempre levou a vida de maneira alegre e descontraída. Nossos encontros nunca foram desprovidos de alegria. Quando falo de alegria, preciso enfatizar que era festa, tal como aquela realizada em Domingos Martins.

No mês de outubro, conversamos longamente sobre o final do ano, que é sempre muito corrido para quem participa de coral, pois são muitos ensaios e, além disso, é sempre bom prestigiar os amigos que se apresentam. Como sempre, recebi um convite–intimação para prestigiar o Coro da Igreja Batista de Goiabeiras.

O tempo passou, e o nosso penúltimo encontro foi em novembro, no sepultamento de Maria Eleny Schaydegger, em Cachoeiro de Itapemirim. Apesar de ser um velório, aconteceu uma situação inusitada, como sempre, que nos fez rir bastante. No final da tarde, ela retornou a Vitória.

Três semanas se passaram, e o Coral Viva Você foi cantar na cidade serrana de Domingos Martins. Chegamos à cidade numa tarde chuvosa, e o Coral da MedSênior se apresentava. Para variar, resolvi gritar o nome de uma amiga que estava no palco. Enchi os pulmões e gritei: — Cristina!!! Para minha surpresa, Thelma estava na minha frente e gritou bem alto: — Sabia! Só podia ser você!!!

Fizemos uma grande festa, e alguns amigos do Viva Você conheceram minha amiga, que sempre foi a mais pura expressão da alegria. Foi um encontro memorável, e meus amigos ficaram brincando comigo, dizendo que eu poderia ser vereador, pois, como sempre, ela estava acompanhada de suas amigas inseparáveis. Pena que ela não ficou para assistir à apresentação do nosso coral, pois o grupo da terceira idade precisava retornar, já que estavam andando o dia inteiro. Foi o nosso último encontro, isso jamais se passou pela minha cabeça.

Dezembro continuou avançando em busca do Natal, e minha amiga, como sempre, fez seus planos para participar do musical do Coral da Igreja Batista de Goiabeiras, comunidade do seu coração. Mas quem pensa que ela apenas amava participar está totalmente enganado, pois ela também gostava de assistir a outras apresentações e tinha planos de ir à Igreja Batista Mata da Praia no dia de Natal. Deus, porém, tinha outros planos.

Na antevéspera do Natal, ela já havia feito os planos para a ceia de Natal e tinha tudo esquematizado para passar aquele momento com seu filho e amigo Ian e algumas amigas da igreja. Nós fazemos planos, mas a aprovação vem do Senhor.

Na manhã da véspera de Natal, levantou-se e fez, nas primeiras horas do dia, aquilo que eu sempre faço nos últimos momentos da noite do dia 24: enviou congratulações natalinas aos seus amigos. Recebi a minha exatamente às 8h17 daquela manhã. Ela pensava, como sempre, nos amigos, no filho, irmão, amigos  e na família. Entretanto, foi nas primeiras horas daquele dia, que ela ouviu: “Thelma, o Mestre te chama! Vem cear!”

A ceia de Natal seria a maior e a melhor que ela já havia participado em toda a sua vida. Foi um chamado rápido, inesperado, incompreendido, inacreditável, mas foi o chamado ao qual não há possibilidade de rejeição.

A ceia da minha querida amiga não mais será como a nossa. Nós a fazemos em homenagem ao nascimento de Cristo; ela a fará para sempre ao lado e na presença do Filho de Deus. Foi — e continua sendo — difícil entender como tudo aconteceu tão rápido. Estamos na condição de amigos, amigas, filho, irmão, sobrinho, cunhada, primos, primas e igreja. Sentiremos falta das gargalhadas, do amor à vida, do cuidado com o próximo e do amor profundo aos seus entes queridos.

Nosso consolo é que a alegria que nos fará falta por aqui será irradiante no céu, sem as amarras e limitações às quais o nosso frágil corpo está submetido. Sou grato a Deus pelo carinho e pela alegria que sempre recebi dessa querida amiga, que atendeu ao chamado do Mestre para cear para sempre com Ele.

Que o conforto divino alcance os corações dos familiares e de todos os amigos. Sérgio e Ian, recebam o carinho de minha família, e que Deus possa confortar os vossos corações. “Eu sei que o meu Redentor vive e que, por fim, se levantará sobre a terra. Depois que a minha pele for destruída, ainda assim, em minha carne verei a Deus. Eu o verei por mim mesmo; meus olhos o verão, e não outros.” Jó 19:25–27

Thelma, vem cear! E, como sempre, sendo boa filha, agora está ao lado do Mestre!

É isso por agora… porém as lembranças e as saudades permanecerão.

Em Cristo…