A
PARÁBOLA DA FLORESTA
(Uma
reflexão sobre os tempos de mudança na vida e na liderança)
Era uma vez uma bela floresta que ficava em uma região do vasto continente africano, possuía uma fauna riquíssima e muitos animais. De um lado daquela floresta, os animais andavam soltos e sem nenhuma preocupação com colecionadores de peles de animais, nem mesmo com caçadores que gostavam de matar os animais apenas por esporte, levando, assim, à extinção de algumas espécies.
Todos
tinham suas tarefas diárias, e os pássaros eram os primeiros a acordar e
imediatamente iniciavam o coro da alvorada, antes do sol nascer. Era uma
verdadeira algazarra, e quem chegava perto daquele barulho na copa das árvores
não entendia se aquilo era briga ou simplesmente alegria por mais um dia que
estava prestes a chegar.
Cada
animal tinha o seu jeitinho bem peculiar de despertar pela manhã. Os elefantes
se levantavam e, com seus bramidos, se comunicavam e, como num piscar de olhos,
uma ruidosa manada se juntava, emitindo sons assustadores e provocando grandes
tremores de terra na floresta.
Durante
o dia era um tal de gazela correndo dos leões. De vez em quando, os leopardos
se estranhavam e entravam em luta corporal, e normalmente ninguém se atrevia a
entrar para separar. Mas a coisa ficava feia quando a mãe rinoceronte se
colocava a defender seus filhotes dos predadores. Era um espetáculo de dar
medo, mas elas nunca desistiam de seus filhos.
O
líder daquele grupo, o todo-poderoso Rei Leão, acalmava os bichos quando
acontecia algum desentendimento com seu rugido forte, amedrontador, que podia
ser ouvido a até 8 km de distância, ou quando precisava colocar ordem para que
as tarefas do dia a dia dos bichos fossem realizadas.
Mas,
do outro lado da floresta, o modo de viver dos animais era bem diferente. Era
um grupo de animais que tinha um modo de viver distinto. Eles não atacavam uns
aos outros, pelo menos não de maneira tão direta como os animais que viviam
fora daquela comunidade. Tinham um líder que também era um leão, e no grupo
havia muitos animais talentosos.
Naquele
lugar reinava uma aparente paz, e aquele lado da floresta tinha muita coisa
bonita. As vegetações pareciam mais verdes, as águas que corriam pelas pedras
pareciam mais claras e limpas. Por incrível que possa parecer, os animais se
respeitavam e nenhum deles ficava tentando tirar a vida do outro como parte de
sua cadeia alimentar. Era uma vida em comunidade, e muitos achavam que aquele
lugar era a verdadeira família que sempre desejaram ter.
Naquele
grupo havia um líder, também um leão, que estava há muito tempo comandando
aqueles animais. Alguns eram obedientes, mas outros davam muito trabalho. A
mamãe elefanta tinha que ficar atenta com seus filhotes, pois eles se
aproveitavam do tamanho e tinham o hábito de mexer com os outros animais. De
vez em quando saía uma briga entre filhotes de rinocerontes e hipopótamos, e
dava trabalho para que os pais separassem os brigões sem se envolver na briga.
Coisas de crianças, mas que traziam alguns aborrecimentos aos pais.
Os
animais adultos, sempre que podiam, se revezavam entre elefantes, rinocerontes,
leopardos e búfalos para tomar conta das crianças, afinal aquele lado da
floresta era civilizado e eles não se comiam uns aos outros. Mas, como nem
sempre tudo naquele lugar era festa, de vez em quando os adultos se
desentendiam e brigavam, e alguns paravam de se falar. Era girafa para um lado,
zebra para o outro, e o leopardo se isolava para não se lembrar de sua velha
natureza e atacar os outros bichos.
Mas
havia um grande problema: quando os adultos ficavam zangados uns com os outros,
isso prejudicava a orquestra, pois os bichos já tocavam juntos há alguns anos,
mas a harmonia ia embora, já que cada um queria mostrar que era melhor que o
outro. O leopardo se gabava de ser o guitarrista, pois era muito ágil para
correr e executava as notas com rapidez e precisão. Na bateria ficava o filho
do Rei Leão, e toda semana precisava trocar as peles do instrumento, pois ele
as furava com suas garras.
O
Sr. Gorila resolveu tomar conta do teclado e até que ele tinha algum talento e
conseguia fazer acordes que atendiam muito bem às necessidades do grupo. Porém,
era muito difícil alguém se aproximar do instrumento, pois ele abria a boca e
mostrava os dentes sem muita amizade. No contrabaixo, foi difícil retirá-lo da
zebra, pois ela se achava especialista e, como tinha muita dificuldade de se
deixar domesticar, às vezes era difícil convencê-la a mudar de ideia.
Os
elefantes, por se gabarem de terem bramidos de aproximadamente 125 decibéis,
resolveram tomar conta dos instrumentos de sopro, e não houve bicho que os
demovesse daquela ideia. O coro de hienas, hipopótamos e gazelas era
assustador, porém interessante. A comunidade era de uma variedade imensa da
fauna africana.
Não
muito distante dali o Rei Leão a todos observava. Ele, além de líder, exercia
um poder sobre o grupo e praticamente só se fazia aquilo que, algumas vezes,
ele pedia e, outras, ele ordenava, e os bichos obedeciam. O tempo passou, e
aquele Rei Leão envelheceu, e a comunidade dos bichos achou que seria a hora de
mudar a liderança. E assim foi feito.
Após
várias reuniões, encontraram um jovem leão que deveria substituir o antigo, e a
mudança foi bem tranquila. O velho leão, agora aposentado, foi para casa, mas,
como estava acostumado a liderar, sempre aparecia na comunidade, e o novo líder
se sentia inseguro quando isso acontecia, pois, além de gostar do velho líder,
havia alguns que sempre comparavam as lideranças.
Passado
um tempo, os bichos mais velhos se reuniram com o velho leão e pediram que ele
não interferisse no trabalho do jovem líder. O melhor que aquele líder
experiente poderia fazer seria se afastar e deixar que os bichos mais novos
aprendessem algumas lições sozinhos e mudassem tudo o que fosse necessário para
o bem-estar da comunidade.
Depois
de certo tempo, o velho leão entendeu que o melhor seria ficar na floresta
aproveitando seu tempo de descanso e deixar que o mais novo decidisse quais
rumos os animais deveriam tomar, ainda que, em alguns momentos, tivessem algum
tipo de dificuldade, pois aprenderiam da mesma forma que os mais antigos um dia
aprenderam.
E,
desse modo, os animais voltaram a viver em paz, e a comunidade dos bichos foi
se desenvolvendo até chegarem à maturidade. Dizem que hoje eles se aproximaram,
deixaram de ser dois grupos e passaram a ser um só na floresta. Tudo porque um
líder agiu com maturidade e deixou que seus antigos liderados crescessem livres
e caminhando com suas próprias patas.
E
assim os bichos foram felizes para sempre...
O
que podemos aprender com essa parábola?
- Em
todos os lugares por onde passamos, vamos encontrar pessoas com
comportamentos e ideias diferentes das nossas.
- Quem
responde pela liderança precisa ficar atento às mudanças que acontecem no
meio da comunidade e ter sensibilidade para procurar resolvê-las sempre
que possível, sem criar problemas de outras naturezas.
- É
preciso respeitar a individualidade de cada um sempre, pois cada pessoa
tem o seu talento e deve ser respeitada e, sempre que possível,
desenvolvê-lo no lugar certo.
- Na
nossa fábula, os bichos com algum talento tocavam e participavam
normalmente do grupo e não foram expulsos, como acontece em muitos
lugares; foram trabalhados na medida em que iam tocando.
- Aprendemos
com a crônica que, quando o nosso tempo acaba, precisamos partir para
outros desafios. É a mesma coisa quando terminamos um ano na escola e
passamos para o outro. O tempo do velho rei passou, e agora era o tempo do
novo rei.
- Em
qualquer lugar, quer seja no trabalho ou na comunidade, sempre que houver
mudança, precisamos entender que quem chega precisa ter tempo para se
adaptar, e devemos ter paciência.
Em Busca da Infância Perdida
Roberto Luiz Gomes






