VOCÊ NÃO SERÁ NADA QUE PRESTA!
Ela
nasceu de uma maneira interessante para a época, pois veio ao mundo com um
dentinho. Todos admiravam essa condição, porém isso não era muito confortável
para sua mãe quando amamentava a criança. O tempo foi passando, a menina
começou a crescer e, desde cedo, já demonstrava que seria uma líder em qualquer
situação da vida.
Ela
tinha mais dois irmãos e, à medida que o trio ia crescendo, a casa se enchia de
alegria. Por ser a menina da casa, era muito paparicada, e os irmãos
praticamente não se desligavam dela. Sua infância foi bem normal. Seu pai
procurava sempre agradar a menina pelo fato de ela ser o xodó da família.
O
tempo passou e a menina, agora adolescente, gostava de estudar e de fazer
amizades. Além das colegas de escola, ela também tinha as amigas da igreja e se
divertia muito com aquele grupo de meninas. Sempre cercada de cuidados, gostava
de estudar e corriqueiramente se saía muito bem nas provas.
Sua
personalidade era muito forte e ela nunca deixou de expor os seus pontos de
vista. Certa vez, uma professora pediu que uma tarefa fosse feita, e ela a
executou sem qualquer dificuldade. Mas, como a professora parecia aborrecida
com alguma coisa, não teve dúvida em falar em alto e bom som, diante de toda a
classe, de modo que todos ouviram: - Você pode se esforçar, pois você não será
nada que presta!
Foi
uma expressão muito forte, em especial por ter sido dita a uma adolescente. Ela
reagiu como os jovens costumam fazer: ficou com raiva e muito chateada. Mas,
como a vida é dinâmica, ela continuou estudando e alimentava o sonho de
ingressar no IFES. Como já vinha se preparando, quando o tempo das provas
chegou, a menina fez o exame. Para a surpresa daquela professora deselegante,
ela foi aprovada e passou em primeiro lugar. Foi uma grande festa na família.
Os
anos de IFES foram fundamentais, pois ela queria voar sempre mais alto. Sua mãe
procurava dar condições para a moça estudar. Ela concluiu brilhantemente o
curso no IFES e, assim que terminou, fez vestibular para Farmácia. Como já era
de se esperar, foi aprovada para estudar no município de Vila Velha, na UVV.
Foram
cinco anos de muitas lutas. Era preciso sair de casa bem cedo para ir ao
trabalho e, no final da tarde, encarar a Terceira Ponte, enfrentar as aulas do
curso de Farmácia e voltar para casa — na maioria das vezes exausta —, na
Serra, para descansar e começar tudo novamente na manhã seguinte. O tempo
passou, a moça se formou e tornou-se uma farmacêutica competente e respeitada.
Trabalhou
em uma rede de farmácias, mas logo surgiu a oportunidade de trabalhar em um
grande hospital na Grande Vitória. Lá foi a farmacêutica desenvolver a
profissão para a qual havia se preparado durante cinco anos. Todo trabalho tem
seus percalços e variações, mas ela foi vencendo todas as batalhas que surgiam
no meio do caminho.
O
trabalho no hospital é muito estressante. Quem cuida da farmácia hospitalar
simplesmente não pode errar, pois as medicações precisam chegar corretamente
aos pacientes, e a equipe deve trabalhar em total sintonia para alcançar o
sucesso no tratamento dos doentes.
Durante
certo plantão noturno, depois de observar e conferir o estoque, cuidar do
controle dos medicamentos, da adaptação das doses e da validação das
prescrições, ela foi passar pelos quartos para averiguar o trabalho da
enfermagem. Na última fase do plantão, analisou a prescrição de um certo
medicamento e resolveu visitar a paciente para averiguar se a tramitação estava
dentro da normalidade.
Assim
que entrou em um dos quartos para conferir mais uma vez a medicação, percebeu
um olhar insistente em sua direção, mas manteve-se concentrada em seu trabalho.
Quando se preparava para sair do quarto, ouviu uma voz que dizia: - Karynna,
você não está me reconhecendo?
Ela,
de imediato, voltou-se para a interlocutora e percebeu que era aquela mesma
professora que havia proferido a frase infeliz no ensino fundamental:
"Você não será nada que presta". Aquela mulher, agora envelhecida e
com lágrimas nos olhos, encontrou o olhar da farmacêutica e, num gesto rápido,
começou a agradecer pelo cuidado dedicado à sua mãe (que era a paciente
internada), reconhecendo diante dos fatos o quanto havia sido infeliz em suas
palavras no passado.
A
menina que "não seria nada que presta" foi exatamente aquela que
cuidou com todo o carinho da mãe daquela professora. Existe um ditado popular
que diz: “O mundo dá muitas voltas”. Muitas vezes, as pessoas que alguns
desprezam ou humilham são justamente aquelas que nos farão o bem em um futuro
que jamais imaginaríamos.
Esse
fato nos faz lembrar de que, se Deus é por nós, o Seu cuidado se manifesta em
todos os momentos das nossas vidas. Ele também nos honra de uma maneira e de um
jeito totalmente Seu. A história seguiu, e aprendemos que a melhor honra que
podemos receber, na verdade, não é dada pelos homens, mas sim aquela que provém
do próprio Deus. Ela vem sem rancor, sem sentimento de grandeza, de forma
sutil, satisfazendo a alma. Não nos faz maiores ou melhores, apenas mais
humanos, com o desejo de continuar vivendo e servindo.
Essa
história nos mostra que aquela menina — agora uma mulher que sempre honrou seus
pais e sua família — é uma excelente profissional e muito dedicada às suas
atividades na igreja. Aprendi com esse relato que Deus tem os Seus planos para
Seus filhos e filhas, e Ele os honra de maneiras inimagináveis. Tudo isso
porque Ele é um Pai que cuida dos Seus queridos.
É
isso por hoje... é vida que segue!






