A Margem Esquerda da Ponte
Fernando de Abreu...
Quem
desce pela antiga Campanha de Alfabetização, passando ao lado do prédio onde
funcionava o Detran pela Avenida Pinheiro Júnior, se tiver um pouco mais de
quarenta anos, tem esse quadro bem claro na mente.
A
linha de trem da antiga Rede Ferroviária Federal, conhecida como Leopoldina,
merece um capítulo à parte, pois muitas vezes simplesmente impedia a passagem
de carros e ônibus por horas. Devo confessar que era uma grande aventura passar
entre os vagões, desde que nenhum amigo da família me visse fazendo tal
bobagem. Como todos nós temos um dia de má sorte, fui dedurado por um amigo do
meu saudoso pai, e a minha mãe usou a vara de goiabeira — um verdadeiro sucesso
nos anos setenta.
No
passado, essa avenida era invadida pelos velhos caminhões Scania de cor
vermelha, que escoavam a produção da Fábrica de Cimento Nassau. Era um
movimento fora do comum e, naqueles dias, a pista era de mão dupla. Mesmo com
os carros a metade da velocidade dos dias atuais, aconteciam acidentes fatais —
e tenho bem nítido um deles, que jamais saiu da minha memória.
Antes
do Hospital Maternidade Mãe Dindinha, que já não existe mais — e onde hoje
funciona o HIFA - Saúde Ocupacional — a via era composta de casas baixas e,
com algumas raras exceções, de pavimento térreo e segundo andar; nesse grupo,
incluo o antigo Tiro de Guerra, onde tive o privilégio de servir com o nome de
guerra Luiz e o número 75, no primeiro semestre de 1978. Outra hora conto como
foi a minha vida de soldado.
Na
nossa caminhada pelo lado esquerdo da margem esquerda do Rio Itapemirim, havia
a antiga Barbearia do Baiano, que ficava numa sobreloja da avenida, bem próxima
da ponte. Nos anos 80, vindo da Cidade Maravilhosa, chegava muitas vezes antes
das 6h da manhã para cortar o cabelo com o Elias, de saudosa memória. Ele, além
de um excelente barbeiro raiz, não aceitava cortar o meu cabelo com a máquina e
sempre me dizia: — Você é pastor e não posso cortar o seu cabelo com máquina,
só com a tesoura.
Descendo
um pouco mais pela margem esquerda do rio, chegamos à antiga Lanchonete
Patinhas, do lado direito da via, que era a alegria da moçada quando sobrava
algum dinheirinho — coisa difícil de acontecer. Lá, além dos salgados sempre
fresquinhos, havia uma cocada cuja casca era durinha, mas o interior
desmanchava na boca. Era, literalmente, o gosto da infância e da adolescência.
A
subida da Ponte Fernando de Abreu, também conhecida como Ponte Municipal, me
traz a lembrança de quando aprendi a dirigir numa Kombi verde e branca do meu
saudoso pai. Como não sabia fazer meia embreagem na ladeira, esperava o
trânsito escoar para subir direto, sem ter que parar — mas, finalmente,
acreditem, aprendi e, na época de pouco juízo, já fiz pega na Beira Rio,
recém-inaugurada na época.
Do
lado esquerdo da ponte, temos o antigo Cine Plaza, que era uma das três salas
de cinema de Cachoeiro, além do Cine Cacique e do Cine Broadway, que ficavam do
outro lado da cidade, à direita do Rio Itapemirim. O Cacique ficava bem no
centro e o Broadway, bem perto da sorveteria Skimone, famosa por seu sorvete de
doce de leite. Entretanto, nossa diversão era tomar vaca preta (sorvete de coco
com Coca-Cola). Precisávamos de muito pouco para nos divertirmos.
Naquele
tempo, o Cine Plaza era a terceira sala da cidade, mas recordo-me de ter
assistido Os Quatro Valentes do Kung Fu, meu primeiro filme na tela grande.
Para minha decepção, os quatro irmãos morrem no fim, e fiquei imensamente
chateado durante muito tempo. Foi lá também que assisti O Exorcista em sua
primeira versão, o que me fez perder algumas horas de sono. Claro que os meus
irmãos só estão sabendo desse fato agora; afinal, eu precisava manter as
aparências.
Quando
passo pela Fernando de Abreu e vejo uma loja de açaí no local onde era o
Patinhas, e nos andares superiores do prédio uma academia e moradias, percebo o
quanto difere dos bons tempos da minha adolescência. Além disso, o movimento de
carros, motos, ônibus e alguns caminhões que precisam descarregar no comércio
das imediações acaba tirando o charme do local, que já foi ponto de encontro de
paqueras e namoros escondidos que merecem um texto à parte.
Quando
olho à esquerda, no local do Cine Plaza, vejo um prédio em bom estado de
conservação que abriga cartórios e outros escritórios, conservando apenas o
velho projetor na entrada, justamente onde ficavam os representantes do Juizado
de Menores pedindo documentos como prova de maioridade. Sempre arranjávamos um
jeito de burlar a vigilância.
O
tempo traz à memória recordações que vão ao fundo da minha alma e trazem
emoções fortes, que parecem ser vividas no momento em que simplesmente
atravesso a ponte e contemplo os dois prédios.
Ah,
sim! Já faz algum tempo que a Ponte Fernando de Abreu passou por uma belíssima
reforma, com o alargamento do local, que agora comporta bancos de alvenaria,
paisagismo e espaços para que crianças, adultos e idosos caminhem sem a
sensação de que serão atropelados pelos carros, pois a calçada é espaçosa e
segura.
No
dia em que você visitar Cachoeiro, estacione na Avenida Pinheiro Júnior ou na
Rua Moreira, ande pelo centro da cidade e deixe-se encantar pelas belezas da
Capital Secreta do Mundo.
É
isso por hoje... É a vida que segue!





