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sábado, 4 de julho de 2026

CEMITÉRIO, LUGAR ONDE TUDO TERMINA?

Cresci em Cachoeiro de Itapemirim, em um local que, naquele tempo, se chamava bairro dos Ferroviários e, mais tarde, recebeu o nome de Nossa Senhora da Penha. O primeiro nome foi em função da quantidade de homens que trabalhavam na rede ferroviária e moravam na parte baixa, onde ficam o Hospital Evangélico e o Instituto do Coração — referência nesse tipo de tratamento de problemas cardíacos no sul do Estado.

Nossa casa fica do lado direito da Rua Maria Dulce Garioli, nome dado em homenagem a uma antiga moradora. Naquela época, não existia esse conceito de limites de território que temos hoje; entre a nossa casa e a da vizinha, a divisa dos terrenos era uma cerca viva, conhecida como sansão-do-campo.

Lembro-me bem do meu velho pai conversando com a vizinha ao lado de nossa casa sobre a vida, oportunidade em que ela usou uma frase interessante que nunca mais esqueci: "Sr. Osmani, na ordem natural das coisas os velhos morrem primeiro, mas não existe ordem natural nessas coisas". E, desde aquele tempo, percebi o quanto ela tinha razão.

Todos nós temos certeza plena, desde que nascemos, de que um dia vamos morrer. Não quero entrar em questões teológicas, mas puramente humanas — coisas do nosso dia a dia que mexem profundamente com o nosso emocional. Costumo dizer que só pensamos na finitude da vida quando perdemos pessoas que nos são próximas e queridas.

Estava assistindo, na tarde deste sábado, a um vídeo do Cemitério Municipal de Cachoeiro gravado pela minha irmã. Eram imagens de sepulcros, pois ela fora ao sepultamento da nossa tia Laurinda Silva, uma das irmãs mais novas da minha mãe. No vídeo, a Solange disse que estava em um lugar onde as pessoas dizem que tudo terminou. Mas será que é assim que tudo termina?

Não creio que a história de Laurinda tenha terminado ali. Muito pelo contrário, acredito que os feitos dela ficarão para sempre em nossos corações, até que a vida deixe de existir em nossas jornadas terrenas.

Laurinda foi uma dessas irmãs que, na juventude, nunca deixaram de viver de maneira alegre e divertida, porém jamais se descuidaram de amparar e ajudar quem precisava. Maria, sua irmã e minha mãe, nunca deixou de reconhecer toda a ajuda que recebeu dela por ocasião do nascimento da minha irmã mais nova.

Laurinda viveu para sua família com todas as forças do seu ser. Nos seus 82 anos de vida, teve o prazer de ver o nascimento dos seus netos. Como a vida é sempre cheia de surpresas agradáveis e outras não, nesse tempo ela passou pela dura experiência de sepultar a sua filha Josiane, fato que marcou para sempre a sua trajetória.

Laurinda era uma mulher muito forte, e isso ficou evidenciado pela quantidade de batalhas que enfrentou na vida, sem nunca esmorecer nos momentos mais difíceis. Nos últimos anos, quando soube da doença, ela a encarou com dignidade, como fazem as pessoas que são gratas e conscientes do privilégio de viver.

Laurinda, ao contrário da expressão popular de que o cemitério é o lugar onde tudo termina, teve apenas a sua história de vida na dimensão humana encerrada. Ela continuará viva na mente e no coração dos irmãos Vivaldo, Maria e Lucy. Sempre gostei da maneira como eles se preocupam uns com os outros e da importância que dão às visitas mútuas como forma de demonstração de carinho e respeito.

Tive a oportunidade de visitá-la com a minha mãe no mês passado. Pudemos conversar com ela no leito, relembrar muitas histórias de nossas vidas e o quanto eu, mesmo quando criança, gostava de ver e ouvir as peripécias que ela fazia e muitas outras histórias.

Foram mais de oito décadas de vida e, como sobrinho, tenho certeza de que o meu pensamento resume o sentimento dos parentes, da filha Carla e dos netos: gratidão pelo tempo que passamos juntos.

Quero terminar desejando que Deus possa confortar os nossos corações, pois o momento da despedida é sempre muito duro. E em Apocalipse 21:4, assim lemos: “E Deus limpará de seus olhos toda a lágrima; e não haverá mais morte, nem pranto, nem clamor, nem dor; porque já as primeiras coisas são passadas.” Portanto, podemos guardar todas as nossas memórias com todo o afeto e ficar convictos de que nem tudo termina no cemitério.

É isso por esta madrugada...