MAS EM NADA TENHO A MINHA VIDA POR PRECIOSA...
Na
minha história de vida tive várias tias, porém uma delas chamada Maria Gomes
Caitano, também conhecida como Babá, era irmã do meu saudoso pai. À medida que
fui crescendo, descobri que ela trabalhava na Santa Casa de Misericórdia de
Cachoeiro. Era enfermeira e, além de se dedicar ao seu ofício, levava uma vida
alegre, leve e solta com as suas colegas de trabalho e familiares. Sua
juventude, através do meu olhar de sobrinho, era plenamente feliz.
No
início dos anos setenta, eram os tempos da Jovem Guarda no Brasil, representada
por um grupo de jovens que eram idolatrados com suas canções de rock e
“iê-iê-iê” (vertente melódica inspirada nos Beatles) e que fizeram um enorme
sucesso. Lançaram a moda de uma camisa quadriculada com gola dupla que, para os
padrões locais, era linda. O primeiro e único menino a ter uma camisa daquela
foi o Robertinho, presente da minha querida tia Babá. Fiz um tremendo sucesso,
só não conquistei uma gatinha por ser tímido.
Minha
tia tinha uma disposição para fazer muitas traquinagens. Recordo-me de certa
vez que, ao chegar em casa, percebi que no pé de abacate havia um galho
quebrado. Ao nos questionarmos, fomos surpreendidos com a explicação dela:
"Subi para tirar uns abacates e, de repente, o galho não suportou o meu
peso e desci com abacate e tudo ao chão."
Os
anos foram passando e tornei-me adolescente. A primeira casa onde agora a
Senhora Conceição e seu esposo foram morar foi no Bairro Coronel Borges, bem
próximo da primeira escola da APAE. Lembro-me de ter ido algumas vezes lá; pena
que não havia abacateiros e nem mangueiras para serem escaladas.
O
tempo passou e ela foi com o esposo morar perto da nossa casa, e formamos uma
bela parceria: agora eu era o entregador de marmita para o tio Francisco, no
ponto de ônibus que ficava perto do Cinema Broadway, ao lado da ponte de ferro
de Cachoeiro de Itapemirim. Durante aquele tempo, conviver com a minha tia
diariamente era prazeroso, pois eu me sentia gente grande.
À
medida que o tempo foi passando, chegou a primeira menina, Fabiane, que alegrou
a família e foi uma grande festa. A menina começou a crescer e, depois de dois
anos, chegou mais uma menina, Flávia, e foi outra grande festa. As meninas
começaram a crescer e era preciso construir uma casa maior, e isso foi feito
com muito trabalho do casal Babá e Francisco.
Depois
de enfrentarem muitas barras e batalharem por recursos, construíram uma bela
casa. Oito anos após o nascimento de Flávia, a família ficou completa com a
chegada de Francisco Júnior. Foi uma alegria, e Conceição praticamente não
conseguia se conter. Mas um fato sempre foi marcante no desenvolvimento das
crianças: desde muito cedo foram encaminhadas à Igreja, mas o aprendizado maior
sempre foi pelo exemplo, e não pelas palavras.
Depois
desse tempo, toda a família se mudou para a Serra, na Grande Vitória, deixando
saudades e a impossibilidade de conversar aos gritos. É que a casa da minha mãe
ficava na rua de baixo e a dela na rua de cima; no meio havia um grande vale e,
para economizar telefone, muitas vezes nossas conversas eram expostas à
vizinhança. Tempos maravilhosos.
Os
anos se passaram e, pela ordem natural da vida — embora não exista ordem
natural para esse fato —, a família cresceu com o casamento de Fabiane com
Christian e a chegada dos netos Níkolas e Sophia, que praticamente visitam o
Brasil a cada ano, fazendo a alegria da família.
Mesmo
morando distante, Babá nunca deixou de exercer aquilo que mais lhe trazia
prazer: ajudar o próximo. Muitas vezes ela deixava a família na Serra e viajava
para passar dias em Cachoeiro para acompanhar pessoas que estavam doentes e que
precisavam de ajuda. Inúmeras pessoas foram acolhidas por ela ao longo de sua
vida, pois tinha prazer em servir.
Durante
a sua vida, um fato sempre me chamou a atenção: a amizade de Babá com Maria
Gomes, minha querida mãe. As duas, desde os primeiros dias de casamento da
minha mãe com o irmão dela, desenvolveram uma profunda amizade, bonita de se
ver — fato contado pela minha mãe. Falavam-se sempre duas vezes durante o dia:
uma vez pela manhã e outra à tarde, infalivelmente. Sei que esses telefonemas
farão muita falta à minha mãe Maria.
Escrever
sobre a Babá é fácil, pois desde o tempo em que me entendo por gente — gosto
dessa expressão —, sempre vi bondade na sua vida e no seu jeito de ser. Sou
grato a Deus pela vida da minha saudosa tia e tenho certeza de que ela amou as
pessoas de maneira incondicional e foi muito amada por todos. A expressão desse
amor, com o coração grato, nós vimos no seu velório, pela quantidade de amigos
que vieram de longe para prestar-lhe as últimas homenagens.
Como
sobrinho, sentirei falta das brincadeiras durante os nossos encontros e das
conversas. A última aconteceu no dia 1º de maio. Foi um tempo muito bom de
brincadeiras, lembranças e comunhão. Um fato curioso foi que liguei várias
vezes para minha mãe e ela não atendeu, mas a Babá foi até o quarto dela, pegou
o telefone, ligou, e a Dona Maria prontamente a atendeu. Logo reclamei: — Como
a senhora atende a minha tia e não ao seu filho? Gargalhamos bastante!
Foi
tudo muito rápido, e ver minha tia em um hospital nas condições em que a
encontrei foi muito difícil. Mas, em meio a todo aquele sofrimento, algo me
chamou a atenção: a maneira digna e cheia de fé com que ela enfrentou a doença.
Não saiu daquela boca nenhuma palavra de reclamação e, em todos os momentos em
que podia, ela apenas agradecia a Deus. Recordei-me de Jó 1:22: “Em tudo isso,
Jó não pecou nem culpou Deus”. Babá demonstrou o tempo inteiro atitudes de fé,
na certeza de que o Redentor vive e agora Ele a tem nos Seus braços
eternamente.
Sei que o Tio Francisco e a Flavinha sentirão falta da esposa, mãe, companheira e amiga, numa casa que ficou maior devido à ausência de Conceição. Imagino o quanto foi e tem sido duro para a Fabiane, como filha, estar longe dos acontecimentos que vivemos na semana passada. Não vai ser fácil explicar às crianças que a avó está nos braços do Pai. Crianças têm muita dificuldade de compreender tempos de perdas e de luto. Sem contar que perderam recentemente o avô por parte de pai.
Babá
viveu o tempo inteiro para os seus familiares, tendo contribuído para a criação
dos seus três filhos ao lado do seu marido. Fizeram um excelente trabalho, e as
provas estão bem diante de todos nós.
Babá
enfrentou todo o processo da doença com muita dignidade e com a serenidade que
somente pessoas de fé conseguem ter. A cada momento em que recobrava a
consciência, sempre evocava o nome de Deus com um sentimento de gratidão.
Babá
nunca deixou de enfrentar os problemas da vida com a alegria que permaneceu com
ela até o momento em que Deus a convocou às mansões celestiais. Foi uma pessoa
que procurou viver com intensidade as palavras de Paulo em Filipenses 4:4:
“Alegrai-vos sempre no Senhor; outra vez digo, alegrai-vos.”
Babá,
com sua vida, conseguiu acompanhar diversas famílias e reuniu no seu
falecimento várias gerações de pessoas amigas que não deixaram de se juntar
para prestarem as últimas homenagens à amiga querida, que ficará para sempre
nos nossos corações.
Babá
viveu com sabedoria e desapego, assim como o Apóstolo Paulo: “Mas em nada tenho
a minha vida por preciosa, contanto que cumpra com alegria a minha carreira, e
o ministério que recebi do Senhor Jesus, para dar testemunho do evangelho da
graça de Deus.” (Atos 20:24). Entendo como Ministério o cuidar de pessoas a
tempo e fora de tempo, e isso ela fez com perfeição.
Babá
não foi somente filha, mãe, avó, esposa, sogra, cunhada, amiga e irmã em Cristo
Jesus, mas foi alguém que teve a oportunidade de conhecer e segurar seus netos,
bem como uma quantidade de crianças que praticamente nasceram nos seus braços.
Sou
grato a Deus por Ele ter sido bondoso e misericordioso, dando-nos a presença de
Tia Babá conosco por variados anos... sessenta e seis... cinquenta e dois...
sessenta e nove... dez... seis... tempo que jamais será esquecido.
“Vinde,
benditos de meu Pai, possuí por herança o Reino que vos está preparado desde a
fundação do mundo.” (Mateus 25:34). Agora, Babá faz parte desse Reino, para
onde todos nós um dia iremos.
Em
Cristo... cheio de saudades eternas!!!

Parabéns pelo Belíssimo texto!! Você conseguiu transmitir com palavras o que toda família gostaria de dizer...A dor da partida é imensa, mas o legado que a tia Babá deixou jamais será apagado... Vamos guardar para sempre sua voz, seu jeito de cuidar e o amor que transmitia até nos momentos mais difíceis... Obrigado por tudo, tia... Sua missão aqui foi linda. Descanse em paz!!
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