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terça-feira, 29 de setembro de 2026

A Margem Esquerda da Ponte Fernando de Abreu...

Quem desce pela antiga Campanha de Alfabetização, passando ao lado do prédio onde funcionava o Detran pela Avenida Pinheiro Júnior, se tiver um pouco mais de quarenta anos, tem esse quadro bem claro na mente.

A linha de trem da antiga Rede Ferroviária Federal, conhecida como Leopoldina, merece um capítulo à parte, pois muitas vezes simplesmente impedia a passagem de carros e ônibus por horas. Devo confessar que era uma grande aventura passar entre os vagões, desde que nenhum amigo da família me visse fazendo tal bobagem. Como todos nós temos um dia de má sorte, fui dedurado por um amigo do meu saudoso pai, e a minha mãe usou a vara de goiabeira — um verdadeiro sucesso nos anos setenta.

No passado, essa avenida era invadida pelos velhos caminhões Scania de cor vermelha, que escoavam a produção da Fábrica de Cimento Nassau. Era um movimento fora do comum e, naqueles dias, a pista era de mão dupla. Mesmo com os carros a metade da velocidade dos dias atuais, aconteciam acidentes fatais — e tenho bem nítido um deles, que jamais saiu da minha memória.

Antes do Hospital Maternidade Mãe Dindinha, que já não existe mais — e onde hoje funciona o HIFA - Saúde Ocupacional — a via era composta de casas baixas e, com algumas raras exceções, de pavimento térreo e segundo andar; nesse grupo, incluo o antigo Tiro de Guerra, onde tive o privilégio de servir com o nome de guerra Luiz e o número 75, no primeiro semestre de 1978. Outra hora conto como foi a minha vida de soldado.

Na nossa caminhada pelo lado esquerdo da margem esquerda do Rio Itapemirim, havia a antiga Barbearia do Baiano, que ficava numa sobreloja da avenida, bem próxima da ponte. Nos anos 80, vindo da Cidade Maravilhosa, chegava muitas vezes antes das 6h da manhã para cortar o cabelo com o Elias, de saudosa memória. Ele, além de um excelente barbeiro raiz, não aceitava cortar o meu cabelo com a máquina e sempre me dizia: — Você é pastor e não posso cortar o seu cabelo com máquina, só com a tesoura.

Descendo um pouco mais pela margem esquerda do rio, chegamos à antiga Lanchonete Patinhas, do lado direito da via, que era a alegria da moçada quando sobrava algum dinheirinho — coisa difícil de acontecer. Lá, além dos salgados sempre fresquinhos, havia uma cocada cuja casca era durinha, mas o interior desmanchava na boca. Era, literalmente, o gosto da infância e da adolescência.

A subida da Ponte Fernando de Abreu, também conhecida como Ponte Municipal, me traz a lembrança de quando aprendi a dirigir numa Kombi verde e branca do meu saudoso pai. Como não sabia fazer meia embreagem na ladeira, esperava o trânsito escoar para subir direto, sem ter que parar — mas, finalmente, acreditem, aprendi e, na época de pouco juízo, já fiz pega na Beira Rio, recém-inaugurada na época.

Do lado esquerdo da ponte, temos o antigo Cine Plaza, que era uma das três salas de cinema de Cachoeiro, além do Cine Cacique e do Cine Broadway, que ficavam do outro lado da cidade, à direita do Rio Itapemirim. O Cacique ficava bem no centro e o Broadway, bem perto da sorveteria Skimone, famosa por seu sorvete de doce de leite. Entretanto, nossa diversão era tomar vaca preta (sorvete de coco com Coca-Cola). Precisávamos de muito pouco para nos divertirmos.

Naquele tempo, o Cine Plaza era a terceira sala da cidade, mas recordo-me de ter assistido Os Quatro Valentes do Kung Fu, meu primeiro filme na tela grande. Para minha decepção, os quatro irmãos morrem no fim, e fiquei imensamente chateado durante muito tempo. Foi lá também que assisti O Exorcista em sua primeira versão, o que me fez perder algumas horas de sono. Claro que os meus irmãos só estão sabendo desse fato agora; afinal, eu precisava manter as aparências.

Quando passo pela Fernando de Abreu e vejo uma loja de açaí no local onde era o Patinhas, e nos andares superiores do prédio uma academia e moradias, percebo o quanto difere dos bons tempos da minha adolescência. Além disso, o movimento de carros, motos, ônibus e alguns caminhões que precisam descarregar no comércio das imediações acaba tirando o charme do local, que já foi ponto de encontro de paqueras e namoros escondidos que merecem um texto à parte.

Quando olho à esquerda, no local do Cine Plaza, vejo um prédio em bom estado de conservação que abriga cartórios e outros escritórios, conservando apenas o velho projetor na entrada, justamente onde ficavam os representantes do Juizado de Menores pedindo documentos como prova de maioridade. Sempre arranjávamos um jeito de burlar a vigilância.

O tempo traz à memória recordações que vão ao fundo da minha alma e trazem emoções fortes, que parecem ser vividas no momento em que simplesmente atravesso a ponte e contemplo os dois prédios.

Ah, sim! Já faz algum tempo que a Ponte Fernando de Abreu passou por uma belíssima reforma, com o alargamento do local, que agora comporta bancos de alvenaria, paisagismo e espaços para que crianças, adultos e idosos caminhem sem a sensação de que serão atropelados pelos carros, pois a calçada é espaçosa e segura.

No dia em que você visitar Cachoeiro, estacione na Avenida Pinheiro Júnior ou na Rua Moreira, ande pelo centro da cidade e deixe-se encantar pelas belezas da Capital Secreta do Mundo.

É isso por hoje... É a vida que segue!

 

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