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quarta-feira, 19 de agosto de 2026


Um carro, um homem e uma noite fria...

Na segunda-feira, saí no final da tarde do trabalho, após um dia que começou bem cedo em Vila Velha. Minha casa fica a pouco mais de oitocentos metros do mar. Todos os dias saio bem cedo e, por volta das 05h22, embarco no ônibus que me leva até Vitória.

Sempre início minha manhã tomando café na Lanchonete Caldo de Cana, onde encontro pessoas amigas. Ontem, fomos agraciados com a presença de Soraya, uma querida mineirinha que saiu de férias e foi passear em Rio Claro, em Minas Gerais, onde permaneceu por 25 dias, aproveitando as belezas daquele Estado.

Para uma segunda, nosso dia foi bem corrido, pois, ao contrário do que muitos pensam, o serviço público é cheio de decisões e trabalho. Muitas vezes o dia é curto devido à quantidade de afazeres, tais como telefonemas, reuniões, redação de despachos e atendimento a inúmeras demandas.

Durante o almoço, sempre aproveito para fazer a famosa resenha, e o papo sempre varia entre futebol, Cataratas do Iguaçu, Usina Hidrelétrica Binacional de Itaipu até a maneira como se faz uma salada. Versatilidade não falta, e isso depende muito dos atores que se encontram na mesa do refeitório.

Ao final da tarde, por volta das 16h, peguei meu casaco de frio e, com certo esforço, o dobrei e coloquei na minha pequena mochila. Segui para o ponto de ônibus, alternando nas mãos o exemplar do livro Crônica do Pássaro de Corda, que foi docemente degustado ao longo da viagem. Na padaria, entre o café e um pedaço de pão com manteiga na chapa, fui cuidadosamente avançando na leitura.

Ao chegar em casa, passei por dois pontos de onde vinha um cheiro agradável de churrasco — que não parecia ser de gato, devido à quantidade de pessoas que se aglomeravam nos locais numa final de tarde fria. Depois de desviar de algumas poças d’água e carros apressados, cheguei ao portão e, ao colocar a chave no cadeado, observei de soslaio uma pessoa sentada do outro lado da rua. Subi, sentei e avancei um pouco mais na leitura do livro.

Após uns quarenta minutos, resolvi descer para ligar o carro, pois o veículo estava parado há mais de quatro dias. Liguei o automóvel e, assim que ele funcionou, olhei direito para a pessoa que estava sentada na calçada e percebi que ela estava como que selecionando o lixo. Após uns cinco minutos, ela comia aquilo que separava. Aquela cena muito me incomodou, e imediatamente retirei a chave da ignição e voltei para o interior de casa.

Em casa, separei uns pães, fiz alguns sanduíches e os coloquei numa sacola. Desci e fui até onde aquele homem se encontrava. Cheguei com certo receio da reação dele e disse-lhe: — O senhor não me pediu nada desde que aqui cheguei, mas senti o desejo de compartilhar o que tenho neste momento com você. Posso? Tenho uns cinco pães com queijo.

No exato momento em que falei, ele tirava um tomate podre de uma pequena lata, com aquele caldo de fruta estragada. Ele me olhou e disse: — Você não sabe como eu desejava comer um pão.

Olhei para aquele homem e, quando pensei em falar alguma coisa, senti um nó na garganta e não consegui dizer nada. Balancei a cabeça e voltei para casa.

Como estou em transição de casa, só consegui fornecer alimento para uma noite e, provavelmente, um café da manhã. A noite avançou e fui para a cama ainda pensando naquela cena. Acordei algumas vezes sentindo muito frio e, quando finalmente chegou o momento de me levantar, decidi saber a temperatura e me assustei quando vi 16 °C no meu celular. Uma noite que deve ter sido um pesadelo para muitas pessoas do nosso imenso país.

A maioria de nós tem uma boa casa e agasalhos que nos dão a comodidade de enfrentar esses tempos adversos em segurança, no aconchego de nossos lares, e devemos ser gratos por isso; mas nunca podemos nos esquecer daqueles que não têm casa nem pão num tempo como este. Entendo que vivemos tempos difíceis e nem sempre as pessoas que pedem ajuda de fato necessitam, mas também penso que não sou eu quem deve julgar a necessidade do outro e sempre devo pedir a Deus sensibilidade para enxergar os que de fato precisam de socorro.

Lembrei-me da passagem bíblica que nos diz em Mateus 25:35-40: “Porque tive fome, e me destes de comer... me destes de beber... quando te vimos com fome e te demos de comer... beber?... E, respondendo o Rei, lhes dirá: Em verdade vos digo que, quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes”. São palavras que sempre me fizeram refletir sobre a importância de ajudar e ser útil na vida das pessoas que me cercam, com o desejo de servir como um gesto de solidariedade humana. Muitas vezes, o que representa pouco para mim é essencial para o nosso próximo.

Que a minha e a nossa escolha sempre recaia sobre o ser humano — neste caso, representado por aquele homem —, sempre tentando ajudar, na medida do possível, com o muito que muitas vezes temos. São pães, roupas, alimentos e objetos que não nos fazem a mínima falta, mas ocupam lugar nas nossas geladeiras, armários e quartinhos da bagunça, deteriorando-se em perfeito estado até serem jogados no lixo.

Que Deus nos dê e nos ensine a maneira de amar como Ele nos amou, dando o Seu próprio Filho.

É isso por hoje... é vida que segue!

 

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