CONTOS DA QUARESMA...
O
Caso da Menina da Lagoa Perdida
A fazenda era uma das mais belas da região, e todos que iam à cidade tinham que visitá-la, pois era um lindo ponto turístico. Para chegar ao local, quem vinha do lado sul da cidade era obrigado a atravessar o lugarejo, disputando espaço entre os carros — pouquíssimos na época —, uma grande quantidade de carroças e entregadores com carrinhos de mão; alguns transportavam as bagagens na cabeça.
Nesse misto de gente, chegou uma família em uma Kombi, modelo de carro que fez bastante sucesso na década de 70, sendo a preferida e símbolo do movimento hippie, associada à liberdade, viagens e festivais. Após comprar alguns mantimentos, o chefe da casa acomodou a família no carro, deu a partida e seguiu para seu destino: a Lagoa Perdida.
As crianças não conseguiam esconder o entusiasmo e faziam uma verdadeira algazarra, apertadas no carro, pois, naquele tempo, a lotação dos veículos correspondia à quantidade de pessoas que conseguissem permanecer espremidas dentro deles. À medida que a viagem avançava, os buracos iam ganhando protagonismo — péssimo para o motorista, mas uma festa para as crianças.
Depois de muita poeira e solavancos, finalmente chegaram ao local onde ficava a Lagoa Perdida. A casa era grande, tinha uma ampla varanda e fora construída sobre uma boa elevação do terreno, de modo que havia um belo porão. A residência tinha uma sala, cinco quartos, uma grande cozinha com fogão a lenha e uma mesa de refeições com oito lugares.
Da varanda da casa dava para avistar os campos verdes e a mata que ficava a aproximadamente três quilômetros. Porém, para chegar até aquele local, era preciso passar entre as árvores que circundavam a casa e descer uma pequena depressão de terra, onde ficava a lagoa. Recebia o nome de “Perdida” porque, ao olhar de longe, ninguém imaginava que haveria água naquele lugar.
Do lado oposto da casa, um pouco mais abaixo, havia um rio. Logo que a família chegou, apaixonou-se pelo local e resolveu adquiri-lo, e foi uma festa para a criançada. Eles se divertiam sempre que voltavam da escola, na parte da tarde. Era difícil se concentrarem no almoço, pois os pensamentos estavam naquela lagoa e em suas águas traiçoeiramente paradas.
A lagoa fazia a alegria das pessoas daquele lugarejo e, dia após dia, o número de frequentadores só crescia, com parentes e famílias que enchiam o local a cada fim de semana ou mesmo nas férias de fim de ano. Tudo era motivo de alegria, até que um fato inesperado mudou tudo.
Um belo dia, a mãe resolveu voltar mais cedo para casa, deixou os filhos brincando na beira da lagoa e foi preparar o jantar. Pediu que não demorassem. Foi um erro que ela jamais esqueceria.
O final da tarde chegou, assim como os meninos, que, depois de muito brincarem na lagoa, retornaram para casa — porém, sem a menina. A mãe os interrogou sobre a irmã, mas eles não tinham resposta, pois imaginaram que ela havia voltado com a mãe e não sabiam onde estava. Os dois irmãos ficaram tão envolvidos nas brincadeiras que não perceberam em que momento a irmã se afastou.
Imediatamente, as atenções se voltaram para a lagoa, e muitas pessoas foram até a casa dos pais que, desesperados, começaram a fazer buscas. Uma equipe do Corpo de Bombeiros foi ao local com os equipamentos disponíveis na época, mas nem mesmo vestígios da menina foram encontrados. Foi uma longa noite de buscas na lagoa e nos arredores; alguns homens chegaram a entrar na mata, mas a menina não foi encontrada.
Entretanto, durante o trabalho frenético dos bombeiros e vizinhos, estranhamente, um cavalo, não muito longe dali, insistia em relinchar tristemente, como se soubesse da dor daquelas pessoas. Com o passar dos dias, o animal acabou morrendo e, ao que parece, foi de tristeza, como se soubesse de alguma coisa.
Os dias se passaram, e aquela família, melancolicamente, assentava-se no alpendre, olhando na direção da lagoa, na esperança de que a menina voltasse — porém, isso não aconteceu. Depois de algumas semanas, um fato estranho começou a ocorrer todas as noites, assim que escurecia, por volta das 19 horas: um grito ensurdecedor de menina e o galope de um cavalo, relinchando forte, passando pela casa. O fato se repetia noite após noite, e todos ficavam assustados e arrepiados com aqueles acontecimentos, mas, quando saíam da casa, nada viam.
Certa vez, a família recebeu um grupo de parentes que chegou no final de uma manhã, sem saber o que acontecia naquele lugar. Um pouco antes do fim do dia, saíram para andar pela propriedade e, quando voltavam para casa — já estava escuro —, de repente ouviram um grito horrível de menina e o galope de um cavalo relinchando na estrada próxima ao casarão. Os visitantes entraram em pânico.
Os homens que estavam por perto correram para ver se encontravam alguma coisa e, ao entrarem na casa, encontraram crianças e mulheres desesperadas, pois, naquele dia, os gritos da menina foram mais fortes, assim como o relincho e o galope do cavalo foram mais intensos do que nos outros dias. Era como um aviso de que não queriam gente estranha ali, além da família.
Naquela mesma noite, os parentes da cidade convenceram a família a ir embora, pois a impressão que tinham era a de que naquele local havia uma alma chorando, querendo retornar de um mundo que não mais lhe pertencia e do qual não poderia se libertar, mas que insistia em passar todas as noites para lembrá-los de que vagava por aquela região.
Na manhã seguinte, as malas já estavam prontas com tudo o que conseguiram juntar, e partiram com os corações partidos, com medo de olhar para trás, pois não queriam ouvir novamente aqueles sons, embora jamais tenham se esquecido da filha e irmã querida. A notícia acabou se espalhando, e ninguém se aventurou a comprar a propriedade. Conta-se que, até hoje, ainda se ouvem os trotes de um cavalo e o grito triste de uma menina vindos da Lagoa Perdida, numa fazenda abandonada.
Não sou fã de águas paradas e conheço histórias tristes de lagoas. Quem sabe um dia eu possa contá-las, mas, por enquanto, ficaremos com esta, que ouvi de uma grande amiga, que diz ter testemunhas de que isso aconteceu e pode me levar próximo ao local onde ficava a lagoa... Agradeci e disse que prefiro ficar nas luzes da Grande Vitória ou pensando no meu pequeno Cachoeiro. Devo esclarecer que não tenho medo de fantasmas, mas sou extremamente prudente.
É isso por hoje... É vida que segue!!!

Em pleno século XXI ainda existem "causos" que nos permitem viajar na imaginação.
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