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segunda-feira, 16 de março de 2026

Contos da Quaresma...

Ela é boazinha... não se preocupem! 

Era um final de semana, e aquele esposo, todo animado, convidou sua amada para passar dois dias no interior do Espírito Santo, numa cidade bucólica de certa região do estado que é muito procurada por casais e famílias que desejam apreciar as montanhas e tomar caldos de variados sabores.

Eles contaram os dias, torcendo para que a semana passasse bem rápido e, na sexta-feira, saíram da capital, Vitória, e partiram em direção à região, buscando aproveitar um bom fim de semana, regado a vinhos, comidas típicas da região e passeios em pontos turísticos.

A cidade, por ser pequena e atrair muita gente, apesar de ficar perto da capital, nos finais de semana tem o acesso muito difícil, pois o número de veículos é grande e o trânsito fica impraticável, sendo necessário ter muita paciência. Confesso que, apesar de gostar muito da cidade, não me arrisco a enfrentar os engarrafamentos que acontecem naquele local, mas acredito que todo esforço é válido para agradar a pessoa amada.

Chegaram à pousada e se surpreenderam com a simpatia da recepcionista, que era uma moça de olhos claros e cabelos que pareciam irradiar o brilho da luz que invadia aquele lugar. Fizeram o check-in, se acomodaram e depois saíram para aproveitar um pouco da noite, degustar a especialidade de um certo restaurante — o capeletti de frango —, tomar um bom vinho e apreciar as estrelas. Depois disso, chegou o momento de retornar ao hotel.

Ao retornarem ao hotel, a moça já não se encontrava mais no local, mas sim um senhor que educadamente os recebeu. Naquele momento, perceberam que havia muitas fotos emolduradas na parede e, pelo visto, eram antigas, de pessoas falecidas. Uma delas chamou a atenção do homem, que fez um comentário sobre a figura da mulher na moldura, achando-a feia, muito esquisita e com um olhar assustador.

Pegaram a chave do quarto e começaram a subir as estreitas escadas, que denunciavam que aquela construção era bem antiga, mas os proprietários a mantinham muito bem conservada. Porém, aquele marido não conseguiu tirar da mente o olhar assustador daquela mulher do retrato envelhecido na parede.

Tudo pronto para dormir, aos poucos o sono foi chegando, ajudado por algumas taças de vinho bebidas durante o jantar, e a noite cumpriu o seu papel: foi avançando lentamente, com o silêncio que o local proporcionava, e até aquele momento tudo fazia crer que as próximas horas seriam de calmaria.

As luzes do quarto foram apagadas e as últimas providências foram tomadas. Finalmente o casal se deitou e, quando estavam prestes a relaxar, algo estranho começou a acontecer. Em determinado momento, o homem ouviu um certo barulho que vinha da porta do banheiro.

Ele se levantou e percebeu que a porta estava entreaberta e achou estranho, pois não havia inclinação no portal que proporcionasse tal fato, e muito menos corrente de ar, uma vez que as janelas estavam fechadas e, pelo fato de o local ser frio, nenhum ventilador ou ar-condicionado havia sido ligado.

Após fechar e examinar bem a porta, deitou-se novamente e, algum tempo depois, percebeu que o barulho se repetiu e ela novamente estava aberta. O homem ficou arrepiado, pois via a porta se movimentando no movimento de abrir e fechar, como se alguém a empurrasse para entrar e outra pessoa a impedisse de sair. Foi uma cena de horror que ficou marcada na vida daquele homem.

Com muito cuidado, ele se levantou mais uma vez, totalmente amedrontado e não querendo acordar sua esposa. Foi tremendo, até a porta, fechou-a e, ao mesmo tempo, sentia um vento frio que corria pelo local. A impressão era de que a onda de ar frio cortava sua roupa, penetrando pelo seu corpo. “Agora está travada”, pensava ele.

Deitou-se mais uma vez, conseguiu fechar os olhos e dormiu. Então aconteceu outro fato que chamou a atenção daquele homem: a porta novamente se abriu e, sem nenhuma explicação, sua esposa apareceu deitada com o corpo virado para os pés da cama e acordou desesperada. Fatos estranhos estavam acontecendo naquele quarto e eles não tinham explicações para tais fenômenos.

A partir daquele momento, o casal já não conseguia dormir, mas também não queria fazer barulho, considerando que já era madrugada. O único meio que encontraram para passar a noite foi conversando até o dia amanhecer. Foi a mais longa da vida daquele casal.

Quando os primeiros ruídos começaram a denunciar que o dia estava amanhecendo, eles, ainda assustados, tomaram um bom banho para tentar tirar o cansaço de uma noite mal dormida, organizaram seus pertences e foram conversar com a proprietária, expondo a experiência vivida naquela madrugada.

Como num toque de atração involuntária, mais uma vez olharam para as fotos e indagaram sobre aquela senhora que eles haviam rotulado de estranha. A explicação que receberam foi que ela falecera no quarto onde eles dormiram e que, segundo a recepcionista, de tempos em tempos aconteciam fenômenos que eram atribuídos àquela senhorinha, mas não era preciso se preocupar: ela é boazinha.

O casal, ainda assustado com as experiências vividas naquela noite, saiu do local com aquela última frase da mulher, que se portava como se os acontecimentos tivessem sido algo natural: Ela é boazinha... não se preocupem!

Foram embora e prometeram não voltar àquele lugar tão cedo. Bem, essa foi a história que ouvi como verdadeira de um amigo motorista da Secretaria de Estado da Educação do Espírito Santo e, como ele é meu amigo, acreditei e a contei aqui.

Já passei várias vezes por aquele hotel, mas não me arrisquei a dormir lá, pois vai que a tal senhorinha resolva aparecer e me assustar. Medo não tenho, porém não estou mais na idade de ficar levando sustos. E, se vocês estão pensando em outro motivo qualquer, sinto muito em lhes dizer: estão enganados!!!

É isso por hoje... é vida que segue!


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