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sábado, 28 de março de 2026


CONTOS DA QUARESMA...
HAVIA UM BEBÊ VIVO E UMA MULHER MORTA NO CARRO...

Essa história ouvi de um amigo há muitos anos. Devo confessar que, naquele tempo, fiquei impressionado com a narrativa e tive alguma dificuldade para dormir, tamanha a convicção dos relatos apresentados. Os dias eram diferentes e, longe das diversões que nossas crianças têm hoje, restava-nos brincar de pique, queimada, jogar porquinho e ouvir casos assombrosos.

Nosso vizinho morava em frente à nossa casa. Ele era caminhoneiro, num tempo em que os caminhões que mais circulavam pelo país eram as carretas da Scania, que transportavam material para a Fábrica de Cimento Nassau, os famosos FNM, apelidados de Fenemê, e os caminhões da Ford. Este último era o veículo do contador de nossa história de hoje.

No final dos anos 60, as estradas do Brasil eram infinitamente inferiores às grandes vias que temos hoje. Uma viagem de Cachoeiro a Vitória, muitas vezes, levava até quatro horas, considerando as condições da estrada. Os ônibus não tinham ar-condicionado e, além disso, faziam uma parada em Jaqueira, quando todos os passageiros desciam para fazer um lanche ou utilizar os sanitários. Coisa de maluco!

Era nessas estradas que o nosso amigo viajava. Ele cortava o Brasil com seu caminhão, enfrentando os perigos das traiçoeiras estradas do país. Segundo ele, certa vez, quando voltava da Bahia, com muita vontade de chegar em casa, agradeceu a Deus ao cruzar a divisa com o Espírito Santo e se aproximar do município de Pedro Canário. Foi uma longa viagem de quase quarenta dias e, como ele havia saído na Quarta-Feira de Cinzas, queria chegar em casa antes da Páscoa.

Da divisa da Bahia até Pedro Canário é uma distância bem curta, entre 13 e 15 km, percorrida com todo cuidado em aproximadamente 40 minutos, pois as condições da BR-101 não eram favoráveis. Chegou à cidade pouco depois da meia-noite e, como estava com pressa, resolveu seguir viagem para dormir em São Mateus.

A cidade de Pedro Canário é dividida pela BR-101 e, assim que se passa pelo município pela rodovia, há um declive bem acentuado na pista, que acompanha uma enorme depressão no terreno. A impressão que se tem é que a estrada faz um enorme mergulho, onde muitos motoristas desavisados podem sofrer graves acidentes.

A descida foi feita com todo cuidado, levando em consideração que os freios do caminhão eram a tambor e lona, um sistema que exigia muita perícia. Por isso, trafegou bem devagar para, então, no fundo do vale, acelerar e subir o acentuado aclive. Eis que, quando se preparava para concluir a descida, olhou para o lado de um penhasco e viu uma mulher toda suja, acenando e gritando desesperadamente. Ele passou por ela, parou adiante no acostamento e voltou para atender aquela senhora.

Ainda de longe, ela apontava para a ribanceira e, quando ele olhou, viu um carro caído que, pelo estado, parecia ter capotado várias vezes antes de chegar àquele local. Segundo esse amigo, ele nem pensou: passou pela mulher e desceu o mais rápido que pôde, pois, nesse momento, outros caminhões haviam parado, e ele tentou chegar o mais rápido possível ao fundo daquele precipício.

À medida que descia, foi encontrando pertences pessoais que haviam caído do carro pelo caminho, e seu coração disparava cada vez mais. Curiosamente, ao olhar para trás, não viu a mulher, o que achou muito estranho, mas prosseguiu em direção ao carro. Ao se aproximar, começou a ouvir o choro de uma criança de colo. Quando chegou ao veículo, tomou um dos maiores sustos de sua vida: a moça que sinalizava na pista estava morta dentro do carro, ao lado da criança, que não parava de chorar.

Naquele momento, ele disse que todos os pelos do seu corpo ficaram arrepiados e pouco faltou para que desmaiasse. Assim que se recompôs, outras pessoas foram chegando com barras de ferro e ferramentas para prestar socorro, e ele, meio perdido, perguntava se alguém havia visto uma moça fazendo sinal na rodovia, apontando na direção do veículo acidentado, mas nenhum motorista viu tal mulher.

Diante daquela triste situação, a única constatação real que tiveram foi a de que havia um bebê vivo e uma mulher morta no carro, totalmente destruído. Recolheram o menino, subiram o terreno com muita dificuldade e, assim que a Polícia Rodoviária Federal chegou, encaminharam a criança ao hospital mais próximo. As autoridades locais se encarregaram de tomar as demais providências, mas aquela história nunca mais saiu de sua cabeça.

Quando ele contava, alguns diziam que foi um anjo que veio dar um aviso, já que aquela criança não poderia morrer ali de inanição. Outros afirmavam que eram criaturas do além e que aquele fato teria acontecido para que a mãe fosse perdoada de seus pecados, ajudando aquele que seria seu filho. Para algumas pessoas, esse teria sido o último ato de uma mãe em favor de um filho que ela não queria deixar, e a vida dele foi poupada pelo amor que ela tinha pela criança.

Na minha cabeça, nenhuma dessas teorias importava, mas sim a impressão profunda que essa história deixou em meu coração e em minha mente. Passei vários dias sonhando com aquela cena narrada pelo meu vizinho e, na minha cabeça de criança, cheguei a ter a impressão de ter ouvido aquela mulher clamando por socorro, tamanho era o meu medo.

O tempo passou, e o caso ficou marcado na minha vida por muito tempo. Foi-me contado como verdadeiro, e tomei a liberdade de compartilhá-lo, aproveitando a época.

É isso por hoje... é a vida que segue!


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