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sábado, 1 de novembro de 2025


O Dia de Muitos Mortos-Vivos

O dia 2 de novembro foi escolhido para homenagearmos nossos mortos. Por todo o Brasil, acontecem verdadeiras peregrinações aos cemitérios, e nesses locais podemos presenciar desde a serenidade cheia de saudade até o desespero de pessoas tomadas pelo arrependimento por atitudes que não tiveram em vida com seus entes queridos.

Algumas dores são recentes — de esposas que perderam seus maridos após longos anos de convivência. Outras são de maridos que não conseguem se reencontrar, pelo fato de terem passado toda uma vida ao lado de quem partiu, sem ao menos poder se despedir. São dores de saudade pela ausência do cônjuge.

Nesse dia também há a dor dos filhos que perderam seus pais e que precisam corrigir a rota da caminhada — o que nem sempre é fácil. A sensação de que a família está se desintegrando com a partida dos nossos pais é um sentimento de difícil expressão.

Mas existe uma dor ainda mais profunda: a dos pais que perderam seus filhos queridos. Não fui pai, mas já vivi de perto a dor deles ao sepultarem seus filhos. É um tipo de dor que nunca passa, e que fica ainda mais evidente quando todos se reúnem para homenagear seus filhos falecidos. Não importa a forma como morreram — são e sempre serão filhos. Como já disseram: “Em tempos de paz, os filhos sepultam os pais; em tempos de guerra, os pais sepultam os filhos.”

Todos nós temos lembranças neste dia. Mesmo que não vamos ao cemitério, nossas memórias permanecem vivas — e, muitas vezes, cruéis. Elas estão lá para nos fazer reviver momentos que se tornaram eternos. Que tipo de recordações suas memórias trazem ao seu coração?

Quando penso nesse dia, vem-me à mente a ideia dos “mortos-vivos”. Naturalmente, o leitor pode pensar que me refiro aos filmes dos anos oitenta, como A Volta dos Mortos-Vivos, ou à série The Walking Dead, mas essa não é minha intenção.

Falo dos entes queridos que se foram, mas continuam vivos dentro das nossas lembranças, aquecendo nossos corações.

Foram pais que marcaram nossas vidas de maneira profunda, procurando nos dar o melhor que possuíam na formação do nosso caráter — como homens e mulheres que sonham em viver num mundo melhor.

Foram filhos que, por mais ou menos tempo que tenham vivido, deixaram marcas inesquecíveis na vida de seus pais. Suas histórias jamais serão esquecidas. Lembrar com carinho e gratidão torna a alma mais leve.

Hoje lembramos dos mortos que já se foram, mas também de muitos vivos que, infelizmente, já estão mortos. São pais esquecidos há muito tempo — antes nos asilos, agora dentro de suas próprias casas, abandonados em quartos e tratados como desconhecidos.

Lembramos também das crianças que, ainda na mais tenra idade, foram abandonadas pelos pais em troca de noitadas, baladas e bebidas. Outras crescem soltas, sem nenhuma supervisão de adultos — crianças “mortas-vivas” na consciência de pais irresponsáveis.

Lembramos dos mortos em sangrentos combates — sejam policiais, sejam bandidos — e das famílias que ainda se encontram enlutadas, pois perderam pais, filhos, irmãos, parentes. Todos sofrem a mesma dor e a mesma revolta, enquanto o povo, distante dessas realidades, muitas vezes alimenta ainda mais o ódio nos corações daqueles que necessitam de consolo.

Hoje precisamos nos lembrar de quem nos marcou com sua maneira simples de viver, e que é lembrado com carinho e saudade.

Chore o quanto for preciso pelos que se foram e apertam o seu coração, mas lembre-se: há muitos vivos que também desejam ser marcados pela sua vida — para que, um dia, você e eu sejamos lembrados com saudade.

Ele enxugará dos seus olhos toda lágrima. Não haverá mais morte, nem aflição, nem choro, nem dor, pois as coisas antigas já passaram. Aquele que estava assentado no trono disse: ― Vejam, eu farei novas todas as coisas! Apocalipse 21: 4 e 5.

Que Deus possa confortar nossos corações neste dia. 

É isso por hoje. Com muito carinho... é vida que segue!




2 comentários:

  1. O texto nos leva a refletir em todo percurso da narrativa. O que nos consola é justamente o que você mencionou no versículo. Parabéns!

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