I Shot the Sheriff, a música que assusta!
Como sempre, saí de casa bem cedo e entrei num ônibus espaçoso, mas com pouquíssimo espaço entre as pessoas, pois muita gente teve a mesma ideia de ir para o trabalho às 05h da manhã — madrugada para alguns. Gente estranha!
Passear de carro é muito bom, mas andar de coletivo é sempre uma caixinha de surpresas. Pela manhã, normalmente, muitas pessoas mantêm a fisionomia fechada, e algumas parecem estar com raiva por terem que acordar cedo. Confesso que, para não fugir das minhas esquisitices, sou do tipo que gosta de acordar cedo e não tenho problema algum em cumprimentar as pessoas, sempre com bom humor e um sorriso. Nem sempre sou correspondido, mas, como bom brasileiro, não desisto nunca.
Desci da primeira condução no final da Rodovia das Paneleiras, que é paralela ao Aeroporto de Vitória, bem diante de um supermercado que tem nome de santo e evoca o pai terreno de Jesus. Daquele ponto em diante, seguindo em direção ao norte do Estado, tem início a Avenida Mestre Álvaro, que é a BR-101, que atravessa todo o Estado do Espírito Santo.
Descer naquele local é sempre uma grande aventura, pois é um grande encontro de veículos que vêm da Rodovia do Contorno, de Cariacica e da Serra. Na direção de quem desce para Vitória, está o Vitória Apart Hospital e um grande hotel que fica próximo ao Viaduto Profa. Sandra de Assis Malani. Porém, pela largura das duas pistas, o local bem que merecia uma passarela, pois isso evitaria que as pessoas arriscassem perder suas vidas em uma travessia tão perigosa.
Depois de atravessar a avenida e, agora seguro no ponto de ônibus, visualizei uma mulher que parece ser descendente de asiáticos e sempre embarca naquele local. É uma senhorinha bem vaidosa e, todos os dias, religiosamente, passa protetor solar e, parece-me, usa brilho nos lábios. Dias desses, por acaso, trocamos duas ou três palavras quando o nosso coletivo nos ignorou e passou direto.
Após subir no ônibus, bem geladinho, por volta das 05h20 da manhã, fiquei em pé para compensar as horas que passo sentado durante o dia, e meus pensamentos divagaram. De repente, me vi nos anos 70, murmurando um reggae escrito por Bob Marley em 1973, mas que ficou famoso com a gravação de Eric Clapton, em 1974, chamado I Shot the Sheriff (Eu Atirei no Xerife).
Num passado longínquo, fui baterista na Igreja Batista do Aquidabã, em Cachoeiro, e tocava no Conjunto e Grupo Emanoel. O primeiro era um grupo misto, e o segundo, apenas de rapazes. Como sou movido ao som da percussão, se uma música vem à minha cabeça, sinto o pulsar do ritmo no meu corpo e, por vezes, pego-me murmurando ou reproduzindo sons com leves gestos e expressões corporais.
Permaneci em pé, próximo à porta do meio do coletivo, pensando no reggae e me sentindo um Eric Clapton, pois o toque daquela guitarra é mágico e a bateria é sensacional — tudo isso enquanto observava a paisagem. A música tem o poder de nos levar a lugares que marcaram nossas vidas e a momentos inesquecíveis em nossas memórias afetivas.
Havia uma senhora que assistia a alguns vídeos no celular enquanto o ônibus prosseguia em seu itinerário, e eu viajava em meus pensamentos e movimentos praticamente involuntários, ao ritmo da música presente em meu ser, quando percebi que, de repente, a senhora pareceu tomar um susto. Ela me olhou com cara de poucos amigos, guardou o telefone na bolsa e fechou o semblante. Aquele movimento me trouxe de volta à realidade.
No início, fiquei sem entender, mas, depois de alguns segundos, cheguei a algumas conclusões: acredito que ela achou que eu estava bisbilhotando os vídeos que ela assistia; ou talvez tenha pensado que eu fosse um maluco tentando cantar uma música em “inglês de caminhão”, e ela entendeu a letra e imaginou que eu atiraria em alguém; ou pode ser que tenha ficado com medo, porque ela estava de costas para a porta, e ali seria um local fácil para pegar o aparelho e descer correndo.
São três prováveis hipóteses que surgiram após a lembrança de uma canção, e logo pensei: I Shot the Sheriff, a música que assusta. Claro que, das três possibilidades, fico com a segunda, pois sei que, quando me empolgo com certas canções, primeiro penso como Milton Nascimento: como não fui eu quem as fez, normalmente as canto sem nenhum tipo de constrangimento — mas toda empolgação em excesso sempre tem um preço a pagar.
Prosseguimos a viagem e logo cheguei ao ponto onde desceria. Observei que a mulher me pareceu mais relaxada. Fora do coletivo, aproveitei para respirar o ar puro da manhã e cantei mais alto, sem me preocupar com o volume nem mesmo com as pessoas que me observavam... I Shot the Sheriff (Eu Atirei no Xerife). Mas calma, não atirei e nunca atiraria em ninguém, pois, inclusive, sou contra o porte de armas. Pessoas armadas se tornam valentes, perigosas e, normalmente, inconsequentes.
É isso por hoje... é vida que segue!