.

.

domingo, 15 de fevereiro de 2026

Um homem com uma Bíblia na mão

Nesse domingo de carnaval, no primeiro grande e esperado feriado de 2026, antes de o país começar a funcionar de verdade para muita gente, o dia amanheceu com um sol bem escaldante, bom para quem gosta de praia.

Saí de casa não tão cedo como de costume, embarquei num coletivo que me levou até uma determinada altura do bairro Carapina e entrei em outro ônibus até o Terminal de Laranjeiras, que, naquele momento, estava vazio. Mas, à medida que o dia avançava, o povo da praia foi chegando, e muitos foliões voltavam da noitada.

Sentei-me com meu livro do dia, absorto na leitura, fato que me fez desligar dos acontecimentos ao meu redor, até o momento em que um senhor desceu do ônibus, trajando um terno preto, sapatos de cor bege, camisa azul-clara e ostentando uma grande barba que, por sinal, estava bem aparada.

Naquele instante, desviei meu olhar para aquele senhor, que estava muito bem trajado para aquele momento do dia. O homem se posicionou num local estratégico, e fiquei esperando que ele proferisse o seu sermão. Gosto de ouvir pregadores em espaços abertos, pois muitos deles normalmente têm abordagens diferentes das tradicionais.

O volume de pessoas e foliões foi aumentando, e o povo passava ainda mais apressadamente. Minha expectativa aumentava com a possibilidade de ouvi-lo. O tempo foi passando, e a pregação não acontecia, mas ele estava firme, balbuciando palavras que eu não conseguia entender ou ouvir, pelo fato de estar distante.

Depois de dez longos minutos, ele se aproximou do local onde eu estava sentado, e pude observar que aquele senhor mal falava e não conseguia sequer pronunciar uma palavra, mas prosseguia firme na sua missão. Acredito que ele tinha algum problema nas cordas vocais, mas não desistia da sua tentativa de falar.

Olhei aquele homem com a Bíblia na mão e fiquei tentando imaginar o juízo que as pessoas fariam dele. Para alguns, ele era um desequilibrado, pois, num calor imenso da Grande Vitória, estava com sua roupa especial de ir à igreja num terminal de ônibus onde as pessoas não se importavam com ele.

Outros poderiam considerá-lo um religioso do tipo fanático, que não se incomodava em ser ridicularizado diante das pessoas. Há muita gente avessa a qualquer religião, especialmente àquelas cujos seguidores costumam carregar uma Bíblia na mão. Esse povo não é bem-vindo em muitos meios.

Entretanto, existem pessoas que não têm o menor interesse em saber se há gente que carrega Bíblia ou não, ainda mais quando a época é de carnaval e elas não têm tempo para observar esses detalhes. A vida é corrida demais para se perder tempo com coisas de gente estranha que usa terno debaixo de um forte calor.

Por outro lado, existe gente curiosa que gosta de observar as pessoas, à espera de que elas lhes tragam curiosidades que podem ser traduzidas como um jeito novo e diferente de encarar e viver essa jornada que chamamos de vida. A Bíblia diz que a vida é como um vapor que aparece por um tempo, mas logo se desvanece. É tão rápida que há gente que se perde no processo de encontrá-la.

Sentado onde estava, permaneci observando aquele homem com um olhar diferente, acredito, da maioria dos transeuntes daquele terminal. Vi naquele local um homem de muita fé, pois, apesar do calor e de ninguém sequer parar para ouvi-lo, ele não pensou em desistir um momento sequer da sua missão. Muitas vezes temos uma fé que não suporta enfrentar um grupo de amigos, uma sala de aula e, muito menos, a nossa família.

Enxerguei naquele senhor um homem de profunda determinação. Ele desceu do ônibus e começou a falar, mesmo sem auditório ou qualquer pessoa interessada. Estava determinado a balbuciar palavras ininteligíveis, mas o importante era dar o seu recado. Há gente que tem voz bonita e fala muito bem, mas não tem a determinação daquele senhor.

Finalmente, vi um homem destemido, pois, além de não ter medo de se expor entre plumas e paetês numa manhã ensolarada de domingo, prosseguiu cumprindo sua missão de testemunhar, obedecendo a uma ordem apostólica de Paulo, em 2 Timóteo 4:2, para pregar “a tempo e fora de tempo”, em qualquer circunstância. Ele cumpriu à risca essa determinação.

Ah, minha condução chegou, e segui para a morada de Laranjeiras, para visitar uma tia querida, e deixei no terminal o homem com a Bíblia na mão.

É isso por hoje... é vida que segue!


 

Um comentário:

  1. Realmente meu amigo, hoje em dia manifestar publicamente a religião é um risco!!!! Ainda mais quando essas são de matrizes africanas.

    ResponderExcluir