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quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

A invisibilidade nossa de cada dia…

No sábado anterior à semana do Natal, precisei ficar em casa fazendo uma faxina, bem no meu tempo, pois precisava devolver o apartamento. E, por incrível que pareça, não conversei com ninguém, nem mesmo com a minha mãe, pessoa com quem falo todos os dias por telefone.

No final do dia, fui ao supermercado e pensei em estender a minha experiência de ficar calado. Coloquei os fones de ouvido e, pacientemente, fechei a porta e desci as escadas com cuidado, pois, mesmo o condomínio tendo trocado as lâmpadas, enquanto não realizarem a manutenção adequada, elas continuarão queimando.

Fora do prédio e caminhando ao som da poesia de Gladir Cabral, cantada por João Alexandre, passei pela portaria e, como havia um grande movimento, consegui passar anonimamente, invisível. Atravessei a avenida e segui com o olhar fixo no horizonte, deixando que o meu corpo fizesse o trajeto, sem me importar com o movimento ao meu redor. Que coisa estranha!

Um casal de velhinhos caminhava na mesma direção que a minha; simplesmente passei por eles como se não existissem. Adiante, encontrei uma senhora de meia-idade andando com muita dificuldade, pois aparentemente apresentava uma contusão no tornozelo. Desviei o meu olhar para o outro lado e segui o meu caminho. Nunca me senti tão mal com tal experimento.

Entrei no supermercado como se invisível fosse, embora conhecesse grande parte dos funcionários que ali trabalham. Caminhei tranquilamente pelas prateleiras sem me deter ou conversar com qualquer pessoa, especialmente com algumas senhorinhas que adoram compartilhar conhecimento e com quem aprendi a comprar limão, melão, quiabo e, acreditem, a desidratar hortelã. Naquele dia, não estava disposto a receber qualquer lição!

Peguei os produtos e fui para um caixa totalmente estranho e, bem no automático, respondi que não queria o CPF na nota. Ensacolei minhas compras e segui o meu caminho por uma rota diferente, o que aumentava a sensação de ser invisível. Era uma estranha percepção de que o mundo girava ao meu redor diante da minha indiferença. Com certa dificuldade, atravessei a pista fora da faixa e retornei ao meu condomínio e à minha realidade.

Ao passar pela portaria, naquele momento, cumprimentei efusivamente os porteiros e, como sempre, conversamos, especialmente sobre futebol. Após a conversa, despedi-me com a frase que sempre uso: “até daqui a pouco”, pois sempre saio muito cedo de casa aos domingos, assim como nos outros dias. A paz retornou ao meu coração. Essa experiência de viver e tentar ser invisível me fez pensar em algumas questões bem sérias.

No final do dia, após meus experimentos, fiquei refletindo sobre como deve ser difícil a vida de pessoas que não têm teto e vagam pelas ruas das nossas cidades. São seres invisíveis, pois passamos por eles todos os dias e agimos como se não existissem. É muito comum encontrarmos pessoas em situação de rua que, ao pedir alguma coisa, demonstram agressividade, e a vontade que temos é agir de acordo com a terceira lei de Newton: toda ação tem uma reação. Esquecemos que elas são invisíveis e só são notadas quando se manifestam, às vezes de maneira agressiva, pois essa é a forma como acreditam que o mundo funciona.

Mas a invisibilidade não acontece apenas nos locais onde as pessoas vivem à margem da sociedade. Infelizmente, muitas vezes, nos órgãos públicos, dia após dia, vivemos a mesma situação. É comum que pessoas passem umas pelas outras no ambiente de trabalho como se não se conhecessem. Participam de reuniões em que discutem como realizar o trabalho com excelência e, no primeiro encontro nos corredores do setor, esquecem tudo o que foi aprendido no dia anterior.

Fico imaginando o que se passa na mente das pessoas quando se tornam invisíveis por conveniência e se sentem bem com isso. Tentei agir como muitos fazem no dia a dia, mas o sentimento que invadiu o meu coração foi de melancolia, pois entendo que a vida se torna muito triste quando se vive em um mundo que parece grande, mas acaba se tornando minúsculo.

Lembro-me da parábola contada por Jesus sobre um homem que descia de Jerusalém para Jericó e foi assaltado, sendo deixado quase morto. Um sacerdote passou pelo moribundo, mas estava ocupado demais com suas obrigações no templo e nada fez. Em seguida, veio um levita, que cuidava da música nas celebrações; passou de largo e seguiu seu caminho. Finalmente, veio um samaritano (povo desprezado pelos judeus), que parou, socorreu o ferido, levou-o a uma hospedaria, deixou algum dinheiro e seguiu seu caminho.

O que aprendemos com essa parábola contada por Jesus? O modus vivendi do sacerdote era: “o que é meu é só meu”. Vou viver a minha vida com todas as minhas conquistas e convicções sem enxergar o outro.

O levita, que cuidava dos utensílios do tabernáculo, do templo judeu e que hoje seriam os responsáveis pela música, também não agiu. Ninguém trabalha nessa área sozinho, mas, naquele momento, seu modus vivendi era: “o que é meu é meu, mas eu mostro para você”.

Finalmente, o samaritano, ao ver o homem quase morto, foi ao seu encontro com todo o altruísmo de uma alma piedosa. Cuidou do desconhecido, pois o seu modus vivendi era: “o que é meu é nosso e precisa ser compartilhado”.

No século XXI, neste terceiro milênio, vivemos a carência de pessoas que pratiquem o princípio de vida do bom samaritano, pois para ele não existiam pessoas invisíveis. Ele usou de misericórdia com um estranho que, historicamente, era inimigo do seu povo.

Tenho plena consciência de que não podemos ajudar todas as pessoas, mas certamente podemos começar enxergando os menos favorecidos da nossa vizinhança, os nossos colegas de trabalho, as pessoas que encontramos nos percursos do dia a dia e, especialmente, os nossos familiares, começando pela nossa casa.

Infelizmente, a invisibilidade foi a tônica de muitas relações ao longo do ano que se finda, mas ainda precisamos falar sobre esse assunto ao apagar das luzes de um tempo em que as relações estão cada vez mais impessoais.

Ainda que o nosso entorno esteja repleto de pessoas que insistem em tornar as outras invisíveis, precisamos quebrar esse ciclo, tornando o outro visível a partir das nossas ações.

É isso por hoje… é vida que segue!


 

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